O que eu senti quando li A Amiga Genial de Elena Ferrante

Faz tempo que não apareço por aqui, mas o motivo de minha falta é bom. Fiquei grávida, trabalhei até o último segundo antes de dar à luz. Agora, eu e a bebê somos um time e por isso consegui ler e também escrever sobre essa obra. 😊

Antes de pedir o livro de presente para um amigo, fiquei realmente na dúvida se o frenesi em volta dessa Série Napolitana tinha um fundamento estético de qualidade. Via os booktubers que acompanho se tornarem fãs de uma hora para outra e fiquei seduzida pelo hype que toda essa empolgação criou.

O(a) autor(a) – parece que é autora – é desconhecido enquanto pessoa. Elena Ferrante nem é seu verdadeiro nome, mas esse pseudônimo tem percorrido o mundo e feito sucesso de vendas desde o lançamento de L’amica Geniale, em 2011, na Itália.

Não é sem razão então a paixão que surge nos leitores de Ferrante. Eu mesma, preciso confessar, fiquei arrasada quando terminei de ler o primeiro volume sem ter em mãos o segundo. Terminei a leitura ontem e somente o ímpeto de falar dele pode ajudar a curar esse sentimento de abandono.

Durante duas semanas, entre mamadas e dormidas quebradas, Lila e Lenu foram minhas companheiras. Fizeram-me sentir o calor de Nápoles, querer falar italiano novamente e até conhecer o Vesúvio.

Nápoles

Não só isso, ao ler a história dessas duas amigas fui logo seduzida por uma narradora veloz, franca e direta. Eu realmente gosto quando o autor cria um personagem narrador que te carrega para dentro da história e te torna parte dela. A amiga genial é assim. Lenu vai levando a gente para conhecer a sua gente e o seu bairro e, principalmente, sua amiga Lila.

A história começa na vida adulta quando o filho de Lila, Rino, liga para Lenu e diz que a mãe sumiu, levando tudo, sem deixar vestígio algum. Parece que para não se suicidar a personagem tenta de fato sumir da face da Terra, mas a amiga Elena Greco, Lenu, decide reverter essa situação e começa a narrar tudo, desde a infância, quando conheceu Lila Cerullo, até a maturidade. Na contramão do sumiço da amiga, vemos uma tentativa de registrar com o coração a existência dela e o surgimento de uma amizade marcada pela importância que Elena Greco dá à Lila.

Do texto é possível extrair algumas questões interessantes que envolve a geração pós-guerra. O trabalho e a função que as meninas, Lila e Lenu, têm que desempenhar diante da família e dos amigos é o terreno onde essas questões se desdobram. Trabalhar duro parece ser a solução concreta para viver e desenvolver o bairro, enquanto que o estudo parece algo irreal, inútil e inacessível, sem resultados imediatos para a sobrevivência. Os relacionamentos amorosos e os casamentos também são (de)formantes na história das meninas.

Assim, a amizade das duas vai sendo transformada em relações de poder com os rapazes, com os professores, com as famílias, e, também uma com a outra. Pelo o olhar de Elena Greco, a Lenu, vemos a espiral que é sua relação com Lila. Se completam, se invejam, se destroem, se amam, se odeiam? Difícil responder. Talvez, seja tudo isso junto. É desse suco que temos a impressão de que a relação de amizade entre as duas é real como as que travamos na vida.

Como conhecemos Lila através de Lenu, sentimos que Lila é superior, mais segura de si, mais inteligente, mais bonita, mais tudo. Enquanto que Elena parece sempre uma sombra ou um espelho tentando refletir um espectro da amiga. Sua identidade enquanto pessoa vai se formando a partir dessa amizade. Vemos aqui o retrato da tradicional comparação que fazemos quando conhecemos uma pessoa do nosso mesmo gênero. Aqui o mundo do feminino pulsa em sua cara mais conhecida: a competição.

Uma é princesa a outra é a bruxa, em outro momento uma é santa, a outra a devassa, e aqui seguimos enlouquecidas por ver que esses traços dissonantes são acordes constituintes de cada uma das personagens.

O mais interessante ainda é notar que por mais detalhes que a narrativa nos traga sobre o que acontece com cada uma das meninas, mais e mais nos parece que as duas nos são desconhecidas. As facetas mostradas são complexas, mas unilaterais. Conhecemos, talvez, um tanto melhor a narradora fantástica que é Lenu, pois ela é o prisma que nos parece mais rico do que a pintura engrandecedora, ainda que complexa, da amiga. Mergulhamos no íntimo da autoria de seus sentimentos ao repassar a amizade para o papel e no final nos perguntamos quem é de fato a Amiga Genial, Lina ou Lenu?

Depois repasso aqui o que vai me causar o restante da Tetralogia! No mais, descobri que essa Série Napolitana vai virar série de TV no próximo ano. De qualquer forma, fica aqui a indicação de leitura antes que vire imagem, para não perder nenhum fio dessa narrativa!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com e no ig @leituresca!

 

Jornalismo: um novo caminho, novas perspectivas

O Jornalismo e um novo jeito de falar sobre

literatura no Leituresca.

O ano de 2016 me ensinou uma lição muito preciosa:

“Se você fizer algo por reconhecimento ou aprovação dos outros, não faça! A vida não é uma sucessão de resultados e respostas prontas. Ela é um caminho cheio de vivências, aproveite.”

Depois que passei a aceitar essa ideia, muitos impedimentos que não eram reais, e sim impostos, foram embora e a vida começou a fluir. Com as leituras está sendo a mesma coisa, pois não preciso mais me preocupar em atingir resultados astronômicos, cumprindo listas de livros e comprando mais e mais, enchendo a estante de possibilidades que, certamente, iriam me sufocar mais tarde.

Jornalismo

Com a formação em Letras descobri minha paixão de ser revisora e consultora literária, ficando ainda mais próxima da Literatura, que movimenta a minha vida. Aqui você pode dar uma olhada de como é trabalhar com revisão e consultoria. E por falar nisso, hoje, dia 28 de março, é dia do Revisor de Textos!

Foi por meio dessas duas funções que encontrei o meu lugar no mundo, que pago minhas continhas e que agora possibilitou investir mais um pouquinho na minha carreira com o Jornalismo.

Por isso, o “atraso” nas resenhas e diários de leitura. Estou vivendo aqui a leitura, estou vivendo aqui um livro. Depois conto quais serão as próximas resenhas…

Mas agora é hora de atualizar o status da bio, digamos assim. A ideia de se trabalhar com diversos tipos de mídias sempre acelerou meu coração, imagina agora com aulas de fotografia, rádio, tv e mídias digitais! É claro que vou aproveitar o máximo possível do Jornalismo para incrementar o Leituresca.com e a minha profissão freelancer (frila) de revisora de textos.

Acredito que desse casamento, Jornalismo e Literatura, muitas portas poderão se abrir. O objetivo maior ainda continua sendo o de se trabalhar as diversas formas de linguagem para fomentar a Literatura de maneira cada vez mais acessível. Não é mesmo à toa que muitos escritores brasileiros encontram no Jornalismo uma outra forma de agir no mundo por meio das letras.

Jornalismo Literatura

Quem sabe um dia as letras transbordem tanto dentro de mim que passem a compor um livro de minha autoria?

Vamos andando…

Só posso garantir que vocês que acompanham o Leituresca sentirão que alguma coisa vai mudar e espero que seja para melhor. Com o Jornalismo pretendo tornar mais acessível o conteúdo de qualidade e robustez que as Letras trouxeram para mim.

Não pensem que vou manipular o mundo inteiro e tudo o que for visto aqui terá segundas, terceiras ou quartas intensões. Não! Ficaria apenas muito contente de ser mais lida e de, principalmente, incentivá-los a ler mais, a não chegar perdido em uma livraria, feira ou biblioteca. A ideia é deixar vocês com água na boca para ler os livros resenhados e encontrar neles um alimento para a vida!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

As redes sociais atrapalham a sua leitura? | Vivências Literárias

Antes de responder essa pergunta, conte quantos dispositivos móveis você tem ao seu redor, e não esqueça de incluir o computador e a televisão que você assiste de vez em quando. Contou? É…pois é. Aqui em casa tenho (vamos lá): 1 smartphone; 1 notebook; 1 tablet (que substitui por um Kindle). Além da tevê.

Até aí tudo bem. O problema começa quando se conta quanto tempo é gasto em redes sociais ou meios virtuais (facebook, twitter, whats, instagram, snapchat, e-mail…) e em serviços de stream de jogos, de filmes e séries também.

Junte tudo isso com o tempo que você gasta no trabalho, atendendo telefonemas ou na frente do pc; com o tempo no supermercado, nas filas da vida. Ah, você faz atividade física? Acrescenta aí. Faz faculdade também? É mãe, é pai? Eita!

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Fica difícil depois de um dia cheio sentar em uma cadeira e ler um livro por uma hora sem interrupções, não é? Justamente porque a culpa não está nas redes sociais, no netflix ou na TV, nem no seu trabalho ou nos seus estudos, que estão te roubando desse prazer imenso que é ler. Seus filhos (pasmem!) também não são culpados por te afastarem para sempre dos livros.

De quem é a culpa?

Antes de sair apontando o dedo… é bom sabermos que alguns fatores estão contribuindo para despedirmos a literatura do nosso cotidiano. A atenção que dispensamos para atividades de concentração, que exigem uma postura serena, de compenetração e calma está cada vez menor. Falta paciência e geralmente estamos muito pilhados ou estressados para isso, já que associamos essa diminuição de ritmo ao sono.

Um outro fator interessante é que associamos a leitura de textos não informativos a algo inútil. Sempre pensamos: “Não tenho tempo para isso!” por mais que o propósito de se ler seja variado – divertimento, terapia, prazer, etc. A verdade é que as prioridades mudam quando as atividades estão relacionadas à saúde mental.

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Por trás dessa expressão de não se ter tempo estão valores muito difíceis de serem driblados. Nos acostumamos à rapidez, à necessidade, à utilidade, à produção, à eficiência, à praticidade… Fomos, enfim, afeiçoados a resolução de problemas e, muitas vezes, parece que viver se reduz a resolver situações complicadas e receber recompensas. Aparentemente, tudo que está fora desse padrão não merece dedicação, porque não tem “troco”; no máximo, serve para se glorificar, dizer que tem ou que leu, que conhece, que comprou…

Por conta desses valores que interiorizamos tanto, gerir o nosso tempo ficou mil vezes pior. Ainda assim, diante de tantas coisas para se fazer, conseguimos ficar entediados! Infelizmente, não tenho a resposta para o tédio.

O que quero sinalizar aqui é que para se ler mais e melhor não precisamos demonizar a internet e tudo o que ela nos oferece, mas precisamos perceber que os valores e as crenças associados à “pressa de se fazer ou se ter algo” são nefastos se forem exclusivos e se eles também estiverem permeando nossas leituras e nossas atividades estéticas tanto de criação como de apreciação.

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A dica que pode dar certo, mas que ainda não testei, é a de separar um tempo na semana para cada coisa, sem que elas atrapalhem umas às outras ou virem uma obrigação opressora. Por isso, não precisamos de maratonas de leituras, nem de listas quilométricas de livros, de filmes, de HQ, de séries e nem de ler três ou mais livros ao mesmo tempo. Nada disso!

A prioridade dessa prática é a valorização da experiência e da vivência de cada momento no seu devido tempo, ou seja, atribuir sentido e significado ao que você faz com o seu tempo de vida.

Então é isso, relaxa, respira e abra a primeira página…


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Lidos de 2016! | RetrôBooks

O ano está quase acabando e achei importante fazer um balanço das minhas leituras de 2016 para ajudar a planejar 2017! Nem todos os livros da lista tem resenha aqui no blog, mas se quiserem… é só pedir! Indicações de 2017? Manda aí! Comprando pelos links da Amazon, você ajuda o Blog a continuar existindo. Feliz Natal hohoho

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1. Drácula – Bram Stoker

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Um pavoroso embate entre bem e mal que seduz milhares de leitores há mais de um século. Fonte de inúmeras adaptações para telas e palco, inspiração para músicos, escritores e artistas de todas as áreas, Drácula é um ícone incontestável e obra-máxima de Bram Stoker. De um lado o conde Drácula – o mais famoso vampiro da literatura – e sua legião crescente de mortos-vivos. De outro, um grupo unido e decidido a caçá-lo: Jonathan e Mina Harker, o médico holandês Van Helsing e seus amigos. Romance epistolar ágil e bem-construído, esse livro enredará também você nessa dramática corrida contra o tempo. Essa edição traz o texto integral de Bram Stoker, centenas de notas, apresentação e cronologia de vida e obra do autor, tudo isso no padrão de qualidade dos Clássicos Zahar. A versão impressa apresenta capa dura e acabamento de luxo.

2. O Velho e o Mar – Ernest Hemingway

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Depois de anos na profissão, havia 84 dias que o velho pescador Santiago não apanhava um único peixe. Por isso já diziam se tratar de um salão, ou seja, um azarento da pior espécie. Mas ele possui coragem, acredita em si mesmo, e parte sozinho para alto-mar, munido da certeza de que, desta vez, será bem-sucedido no seu trabalho.

Esta é a história de um homem que convive com a solidão, com seus sonhos e pensamentos, sua luta pela sobrevivência e a inabalável confiança na vida. Com um enredo tenso que prende o leitor na ponta da linha, Hemingway escreveu uma das mais belas obras da literatura contemporânea.

Uma história dotada de profunda mensagem de fé no homem e em sua capacidade de superar as limitações a que a vida o submete.

3. Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

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Protagonista e narradora de Hibisco roxo , a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país.

Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.

4. As Três Marias – Rachel de Queiroz

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Em seu quarto romance, As três Marias, a escritora cearense Rachel de Queiroz foi ainda mais fundo em um tema que já estava presente em todas as suas obras anteriores: o papel da mulher na sociedade. A história tem início nos pátios e salas de aula de um colégio interno dirigido por freiras: Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são amigas inseparáveis que ganham de seus colegas e professores o apelido de “as três Marias”. À noite, deitadas na grama e olhando para o céu, as meninas se reconhecem na constelação com a qual dividem o nome. A estrela de cima é Maria da Glória, resplandecente e próxima. Maria José se identifica com a da outra ponta, pequenina e trêmula. A do meio, serena e de luz azulada, é Maria Augusta – ou simplesmente Guta, como sempre preferiu ser chamada

5. Quarenta Dias – Maria Valéria Rezende

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Quarenta dias no deserto, quarenta anos. É o que diz (ou escreve) Alice, a narradora de ‘Quarenta dias’, romance de Maria Valéria Rezende, ao anotar num caderno escolar pautado, com a imagem da boneca Barbie na capa, seu mergulho gradual em dias de desespero, perdida numa periferia empobrecida que ela não conhece, à procura de um rapaz que ela não sabe ao certo se existe. Alice é uma professora aposentada, que mantinha uma vida pacata em João Pessoa até ser obrigada pela filha a deixar tudo para trás e se mudar para Porto Alegre. Mas uma reviravolta familiar a deixa abandonada à própria sorte, numa cidade que lhe é estranha, e impossibilitada de voltar ao antigo lar. Ao saber que Cícero Araújo, filho de uma conhecida da Paraíba, desapareceu em algum lugar dali, ela se lança numa busca frenética, que a levará às raias da insanidade. ‘Eu não contava mais horas nem dias’, escreve Alice em ‘Quarenta dias’, um relato emocionante e profundo. ‘Guiavam-me o amanhecer e o entardecer, a chuva, o frio, o sol, a fome que se resolvia com qualquer coisa, não mais de dez reais por dia (…)’. Onde andaria o filho de Socorro? A que bando estranho se havia juntado, em que praça ficara esquecido?

 6. As Meninas – Lygia Fagundes Telles 

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Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A burguesa Lorena, filha de família quatrocentona, nutre veleidades artísticas e literárias. Namora um homem casado, mas permanece virgem. A drogada Ana Clara, linda como uma modelo, divide-se entre o noivo rico e o amante traficante. Lia, por fim, milita num grupo da esquerda armada e sofre pelo namorado preso.

As meninas colhe essas três criaturas em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas. Transitando com notável desenvoltura da primeira pessoa narrativa para a terceira, assumindo ora o ponto de vista de uma ora de outra das protagonistas, Lygia Fagundes Telles constrói um romance pulsante e polifônico, que capta como poucos o espírito daquela época conturbada e de vertiginosas transformações, sobretudo comportamentais.

Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, As meninas acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora.

7. Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll

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Passados quase 150 anos da publicação original, a clássica história de uma menina chamada Alice, que entra em uma toca atrás de um coelho e cai em um mundo de fantasia, continua popular.

Essa charmosa edição de bolso com ilustrações originais de John Tenniel, reúne Aventuras de Alice no País das Maravilhas e sua continuação, Através do espelho e o que Alice encontrou por lá.

8. Dom Casmurro – Machado de Assis

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Obra clássica do Realismo brasileiro e uma das mais famosas de Machado “Ainda hoje. mais de um século depois do surgimento do livro. leitores e críticos se debruçam sobre suas páginas na tentativa de encontrar pistas que lancem luz sobre o insolúvel ‘enigma de Capitu’.” Carlos Newton Júnior “É possivelmente o texto mais bem-acabado de nossa língua.” Carlos Sepúlveda Dom Casmurro é o romance mais estudado. comentado e discutido de Machado de Assis – o que significa dizer um dos mais estudados da nossa literatura. Publicado originalmente em 1899. o livro conta a história de Bentinho e Capitu. desde o namoro infantil até o casamento atormentado pelo ciúme e pela dúvida que virou polêmica literária: Capitu traiu o marido com o melhor amigo dele. Escobar? Os fatos são narrados por Bentinho. que relembra. já velho. episódios de sua vida.

9. Turismo para Cegos – Tércia Montenegro

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A vida de Laila está prestes a se esfacelar. Jovem aluna de artes plásticas, ela tem os planos interrompidos por uma doença degenerativa e incurável que vai lhe custar a visão. Conforme a cegueira avança, tarefas corriqueiras tornam-se desafios e tudo o que lhe era familiar precisa ser explorado e redescoberto. Assim, também há algo de novo no envolvimento com Pierre, um funcionário público aparentemente inexpressivo que irá cuidar de Laila com dedicação.

10. Olhai os Lírios do Campo – Erico Verissimo

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Primeiro best-seller de Erico Verissimo, Olhai os lírios do campo representou uma guinada na carreira literária do escritor. Várias edições se esgotaram em poucos meses. Segundo Erico, o sucesso foi tão grande que “teve a força de arrastar consigo os romances” que publicara antes em modestas tiragens.

Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, Olhai os lírios do campo é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida.

11. Menino do Mato – Manoel de Barros

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Um dos últimos livros escritos por Manoel de Barros, Menino do mato sintetiza com perfeição suas aspirações e seu estilo. Esse menino, que é a consciência do poeta, deseja apreender o mundo sem explicações ou propósitos. Na primeira das duas partes que compõem esta obra, Manoel reforça sua instintiva ligação com a natureza e a infância. Em sua procura por “palavras abençoadas pela inocência”, o poeta busca o universo em seu estado primordial. A segunda parte, “Caderno de aprendiz”, evidencia a absoluta liberdade de sua linguagem. Aqui, as palavras deixam de nomear para nos fazer simplesmente sentir a pureza dos primeiros tempos de nossas vidas.

12. Feliz Ano Velho – Marcelo Rubens Paiva 

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Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas”.

13. Razão e Sensibilidade – Jane Austen

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Originalmente publicado em 1811 sob o singelo pseudônimo “A Lady”, Razão e sensibilidade começou a ser escrito na década de 1790, quando Jane Austen (1775-1817) mal havia completado vinte anos. O livro é o primeiro da série de quatro romances que Austen publicou como edição do autor em seus últimos anos de vida. Todos se tornaram clássicos da literatura inglesa do século XIX.

Embora sua trama se desenvolva durante uma época de guerra e revolução no continente europeu, o romance concentra sua narrativa nas idílicas tramas de amor e desilusão em que duas belas irmãs inglesas se envolvem – Elinor e Marianne Dashwood – quando chega a idade do casamento. À procura do amor verdadeiro, as filhas órfãs de uma família pertencente à pequena nobreza enfrentam o mundo repleto de interesses e intrigas da alta aristocracia. Marianne e Elinor representam polos opostos do universo ético de Austen: Marianne é romântica, musical e dada a rompantes de espontaneidade, ao passo que Elinor é a encarnação da prudência e do decoro.

14. A Louca da Casa – Rosa Montero

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Em A louca da casa, Rosa Montero propõe aos leitores um jogo narrativo cheio de surpresas. Nele se misturam literatura e vida, num coquetel estimulante de biografias e autobiografia romanceada. E assim descobrimos que o grande Goethe adulava os poderosos até chegar ao ridículo, que Tolstói era um energúmeno, que Rosa, quando criança, via-se como uma anã e que, aos 23 anos, manteve um extravagante e hilário romance com um ator famoso.
Mas não devemos confiar em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as lembranças nem sempre são o que parecem. Este é, afinal, um livro sobre a fantasia e os sonhos, a loucura e a paixão, os medos e as dúvidas dos escritores, mas também dos leitores. A louca da casa é, antes de mais nada, a tórrida história de amor e de salvação entre Rosa Montero e seu imaginário.


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Sobre Rodas | Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva

Ler literatura brasileira se tornou tão viciante que mal me lembro dos grandes clássicos da literatura universal que tenho na estante. Sem querer fazer uma hierarquia entre as literaturas, percebo que, cada vez mais, para ser uma escritora “viajada” tenho que mergulhar na dicção da literatura brasileira contemporânea.

A tônica e cadência da leitura se encaixam perfeitamente em algo que já carrego dentro de mim. E o que seria? Ainda não sei…mas compreendo que não é apenas uma identificação de nacionalidade. É mais do que isso: é uma forma particular e ao mesmo tempo conjugada de se ver a vida e o cotidiano. Particular, porque é singular de cada escritor e conjugada, porque de alguma forma há muita empatia entre a nossas conversas (leitura).

Foi assim com o romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho. Fisgada já na primeira linha, passava horas e horas lendo as histórias desse garoto namorador que por conta do “destino” ficou paraplégico aos 20 anos depois de pular de cabeça em um lago raso e fraturar a medula. Contrariando a expectativa do leitor de compadecer-se do “coitado”, Marcelo faz com que a gente consiga sorrir diante das suas percepções sobre essa situação crítica.

 

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A gravidade do problema passa para a história, mas não como algo sério ou sisudo demais, chocando o leitor de sobrancelhas armadas, ao ponto de evocar o sentimento de pena. Marcelo “transa” a situação mais complicada de sua vida com o humor de um garoto que viveu e continuava vivendo relacionamentos indefinidos com as mulheres, muitas amizades e o amor à vida.

Visto como um livro de memórias, ele não se concentra apenas no período de recuperação de Marcelo, mas mergulha ainda na infância marcada pelo sumiço do pai pela Ditadura Militar, o deputado Rubens Paiva, que somente em 2014 com a Comissão da Verdade teve seu caso esclarecido. Além disso, o livro conta sobre a juventude do Autor enquanto universitário no curso de engenharia agrícola, participando ativamente das lutas políticas estudantis na Universidade de Campinas, e, ainda, suas vivências como músico de paixão.

Em meio a vários obstáculos novos, o sexo é abordado constantemente, parece até que Marcelo sabe qual a primeira coisa que o leitor vai pensar: Será que um tetraplégico consegue fazer sexo? Sente prazer? Tem ereção? (Vai bem me dizer que você sordidamente nunca se perguntou sobre isso?) Essas são também as principais questões do Autor que vê sua vida mudar radicalmente sem ter a certeza se vai conseguir andar novamente e fazer tudo o que os outros fazem.

Com um humor leve e uma linguagem despojada cheia de gírias da década de 1980, o leitor é conduzido a compreender que Marcelo não está ali contando sua jornada de herói, não se considera nem mesmo como um exemplo de superação. Sem dó algum, ele mesmo vai examinando a medula espinhal de sua personalidade imatura, machista, inconsequente e cheia de fraquezas.

A beleza do livro está certamente no sentimento de gratidão que acompanha cada conquista do corpo, na manutenção das relações de amizade que vivificam sua rotina minimalista e na presença da família, relembrando-nos o que é realmente importante valorizar na vida e que cada respiração é motivo suficiente para celebrá-la. Aqui com certeza a empatia aconteceu.


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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

A peregrinação interior | Quarenta Dias de Maria Valéria Rezende

É preciso deixar claro que depois de ler Quarenta Dias não é mais possível olhar para um caderno da Barbie nas Americanas e agir normalmente.

 

O livro, vencedor do 57º Prêmio Jabuti, conta a história de Alice, 60 anos, professora de línguas, aposentada e viúva, que foi levada de João Pessoa para Porto Alegre pela filha, tendo como missão ser avó profissional para que a mãe da criança continuasse sua carreira acadêmica.

Maria Valéria Rezende é freira desde os 24 anos de idade, não é, portanto, sem propósito o título do livro. A autora tem conhecimento de causa do que quarenta dias significa no universo bíblico. Esse foi o período em que Jesus passou no deserto, o qual simbolicamente os cristãos católicos retomam no período pós-Carnaval e pré-Páscoa.

Alice, narradora-personagem, também sai em peregrinação durante quarenta dias pelas ruas de Porto Alegre, passando em becos, alojamentos de construtoras, rodoviária e até saguão de pronto socorro em busca de Cícero Araújo, filho perdido da manicure de uma amiga lá de João Pessoa.

Bastou isso como pretexto para Alice sair daquela vida emprestada, daquele apartamento arranjado e sem história, daquela função imposta de ser avó. Na verdade, perdida de si mesma, sem o endereço da sua nova casa em uma cidade desconhecida, Alice preferiu passar quarenta dias em mendicância a ter que voltar para a nova situação que a vida lhe impunha.

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No entanto, ao contrário da figura bíblica, o terreno em que ela peregrinou era fértil, dele brota várias percepções críticas do cotidiano, como as de que lá no Sul, os de cá do Nordeste são considerados todos iguais, de que também tem gaúcho negro e de que as dicotomias entre as Regiões embalam mais proximidades e interseções do que se imagina.

“[…] desde aquela manhã, no meio daquela agitação que eu mesma causara com a minha pergunta, vinha ganhando uma calma por dentro que havia muito não sentia, as falas, emoções e estranhezas do mundo maior me chamando pra fora e a minha própria amargura encolhendo-se num canto discreto. Estranhezas, eu disse? Engraçado é que eu tinha a impressão de, afinal, quase nada ver de tão estranho assim, neste Sul tão longe de casa, o povo misturado de todas as cores, os petiscos de pobre, aquele tanto de negros gaúchos que eu nunca soube que existiam, violência e solidariedade, pobreza e necessidade, iguais às da minha terra, a pedir milagres. ” (Pág., 120)

 O olhar para o mundo não é de denúncia social – do tipo que direciona o seu ponto de vista frio sobre a condição de existência do outro, estando munido do direito de falar o que é melhor para a vida alheia –  ao contrário, Maria Valéria Rezende, por meio de Alice, tece uma narrativa vívida do que é não se sentir abrigado em si mesmo, não poder fazer escolhas e ter que exercer uma função que lhe é imposta, tendo apenas como alternativa legítima, digna e autêntica, diga-se de passagem, viver no entre-lugar, na transitoriedade das ruas, durante quarenta dias em busca de si mesma. Àquela dor de ter que ceder, de aceitar o que é obrigado sem antes digerir, foi preferível fugir e preencher o vazio com a dor crua do mundo.

“Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos. […] A essa altura, meu caso, da minha própria filha, desaparecida simplesmente porque eu me recusava a ter mais notícias dela, começava a me parecer banal e mais uma vez me deixava levar por outra pessoa, agora, porém, sem nenhuma revolta, nem pensei em recusar, fui, pra onde me puxaram, decerto satisfeita por não ter de me emocionar com mais nada senão Cícero Araújo […]. ” (Pág., 118)

E o caderno da Barbie? Ora, pois num é dele que temos notícias de tudo! A boneca loira de olhos azuis da capa do caderno serviu ali para Alice como um ato de ressureição, a conceder o auto perdão depois da penitência. Era preciso colocar para fora, expurgar a experiência, concretizar a dor na escrita, para que a olhando de fora, pudesse facilitar o entendimento do que está dentro. O caderno da Barbie é miraculoso.

“E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo pra fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda pra lá e pra cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e canta e arenga e escarra e fala e fode e fala e vende e fala e sangra e se vende e sonha e morre e ressuscita sem parar.” (Pág., 14)

Como não se surpreender com a leveza da narrativa da escritora, com a plasticidade da linguagem que sai natural, mas que revela no fundo que só sabe brincar com a linguagem e transgredir, criar novos sentidos e formas, aquele que domina e conhece a norma e suas fissuras. De contraponto fica o questionamento de que não é preciso muita coisa para escrever o que está nos afligindo; basta uma mente, sã ou não, um caderno, da Barbie, de preferência, e uma caneta. O resto, vem depois.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

O Clube dos Clubes | A Leitura salvou a minha vida

Oie leitores! Esse blog é sobre vivências literárias e eu não poderia deixar de falar sobre como tudo começou. Tudo o quê? Aguarde e confie…

Fiz o curso de Letras com a pretensão de ser professora da matéria que eu mais gostava na escola, literatura. Claro que 5 anos depois muita coisa mudou. Desde o começo não sabia para que lado pender: Linguística ou Literatura? Era preciso começar a participar de grupos de pesquisa, ter um objeto de estudo, pensar no mestrado…

Terminei o curso angustiada, não sei por qual razão ter o título de mestre perdeu a graça. Depois, foi perdendo o sentido estar associada a grupos de pesquisa, ter projeto, objeto de estudo, fontes, bibliografia, metodologia, linha de pesquisa, dar aula etc etc…

Não era raro chegarem aos meus ouvidos conversas escabrosas sobre picuinhas, mesquinharias e disputas de poder entre os colegas de curso e até mesmo entre os próprios professores, que se vistos em diálogo contribuiriam muito mais para as suas áreas. Entendi com o tempo que quem deveria fazer as ligações entre a abordagem de um professor e outra era eu mesma, mas já estava cansada e a atmosfera ficou pesada demais para o meu senso de coletividade. Antes de entrar em uma pós-graduação eu já estava com depressão.

Foi aí que a Leitura entrou na minha vida!

A convite de uma amiga muito especial, comecei a frequentar o Clube de Leitura Leia Mulheres daqui de Fortaleza. De repente aquilo que antes era visto como “xoxotismo” por alguns, se tornou Feminismo. A Literatura começou a se tornar cada vez mais significativa e entrelaçada com minha experiência de ser mulher, foi um caminho sem volta.

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https://leiamulheres.com.br/

Ao mesmo tempo em que começava a frequentar livrarias e cafés, fui conhecendo gente nova e colhendo mais vivências dos outros com a literatura. Até minha cidade passou a se revelar mais leitora com uma quantidade imensa de Clubes de Leitura que existiam sem eu saber!

Quando comecei a frequentar o clube, tinha medo de falar, tinha medo de parecer acadêmica demais, de calar as pessoas com o que elas achavam que eu deveria saber…. Mas tinha tanta coisa guardada, tanta coisa para falar aqui dentro, que ultrapassava essa coisa de ser “conhecedora” do assunto. Eu queria mesmo era dialogar, ler coisas novas, conhecer pessoas de áreas diferentes, mas que conservavam a mesma paixão que a minha.

Foi assim que caí no grupo Escambanautas (https://www.facebook.com/groups/cambanautas/) e no Escambau (http://escambau.org/). Acolhedor é pouco para falar sobre esse coletivo de cultura pop, geek, literatura e o Escambau, que abriu os braços para me receber enquanto eu tentava abrir minha mente para um monte de coisas novas.

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https://www.padrim.com.br/escambau

De lá nasceu a oportunidade de ser mediadora do Escambaclube – Clube de Leitura do Escambau. A cada encontro mais e mais me surpreendo com a galera que quer ler para escrever, refletir, falar mal, se emocionar, enfim, trocar impressões de leitura.

Depois veio a TAG – Experiências Literárias (http://www.taglivros.com/). Creio que a caixinha surpresa concentra hoje o maior clube de leitura do Brasil, com um número exorbitante de associados que recebem em suas casas muito mais do que um exemplar de livro. Recebemos, na verdade, uma vivência transmitida por um curador, juntamente com objetos que ampliam a experiência literária (por favor, não entenda como brinde), além de uma revista que nos ajuda a rememorar o que tem de interessante em cada livro do mês.

http://www.taglivros.com/
http://www.taglivros.com/

Pensando ainda em coletividade, chamei umas amigas para o Clube de Leitoras Jane Austen. Esse clube nasceu aqui de umas caraminholas na minha cabeça, pois, apesar de assistir todas as adaptações das obras dessa escritora inglesa, ainda não tinha lido mais nada além de Orgulho e Preconceito. Nosso encontro ainda vai acontecer no dia 23 de outubro, aqui em casa, com bolo e café, é claro. E sabendo do poder terapêutico da literatura, inventei de dividirmos um diário de leitura, em que vamos escrever tudo o que sentimos e pensamos umas para as outras numa espécie de rodízio – tomara que o caderno resista às lágrimas. Só amor!

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Tem mais?

Tem sim… Além dos canais que acompanho no youtube, Ler Antes de Morrer e Literature-se, descobri as potencialidades do aplicativo Amino Livros. Lá encontrei outros tipos de leitores que, sem nem se conhecerem, trocam indicações de leitura, formam clubes, grupos de discussão, trocam resenhas, vídeos… um mundo de coisas. Imagine uma mistura de WhatsApp, Instagram, Sckoob e Facebook… agora adicione aí leitores, pronto, isso aí é o Amino Livros.

https://play.google.com/store/apps/details?id=com.narvii.amino.x208052164&hl=pt_BR

Como esse post está grande, por isso deixei O Clube dos Clubes para o final…

Este clube de leitura que eu tenho comigo mesma é especial, pois é com ele que entro nos eixos, que recupero minhas forças, que consigo levantar todas as manhãs para trabalhar revisando textos e auxiliando escritores. Nele, reflito as leituras da vida, das pessoas, das situações. Todo o resultado dele está aqui no Leituresca.com. Podem entrar, sejam bem-vindos sempre!

 

Imagem de: Jonathan Wolstenholme


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

A criança de 150 anos | Alice de Lewis Carroll

A pior coisa do mundo é sabermos tudo sobre a vida de alguém que não conhecemos! Afinal, de que adianta? Essa era a minha relação com o livro Aventuras de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. Uma fofoca pela metade!

Por ser uma referência desde o filme de Walt Disney de 1951, facilmente me deparo com sua imagem em cadernos, blusas, pingentes, etc., mas nunca parei para ler de fato essa mocinha de mais de 150 anos. Apesar da idade, Alice não caducou. A irreverência de sua história continua a cativar aqueles que se predispõem a perseguir o coelho branco e ler o livro.

A obra foi publicada em 1865 e com a ajuda das ilustrações de John Tenniel, importante ilustrador da época, inaugura a estética do nonsense, ao mesmo tempo em que abre as portas do mercado editorial inglês para livros voltados especificamente para o divertimento das crianças.

O enredo começa com Alice já questionando para que serve um livro sem diálogos e sem figuras. Se essa questão não é a razão de ser da literatura infantil, qual seria? Entediada ao lado da irmã que lia, Alice de repente é surpreendida por um coelho branco de colete e de relógio de bolso, reclamando que está atrasado. Basta esse mote para que qualquer criança ou adulto fique ardendo de curiosidade e continue a ler o livro. (É claro que se o livro tivesse sido lançado ontem a curiosidade seria muito maior!)

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Antes que se diga algo a mais sobre a história, é importante que o leitor saiba que há dois caminhos de leitura que podem vez por outra se cruzarem. Um dos caminhos é ler viajando nas imagens absurdas e até mesmo psicodélicas sem a preocupação com o sentido ou com o significado por trás de cada cena; o outro caminho é ler parando para pensar na crítica à sociedade vitoriana e nos possíveis questionamentos existenciais que a obra suscita.

Qualquer um dos percursos escolhidos e até a intersecção deles são suficientes para que o leitor se depare com as principais contradições trabalhadas no livro: sonho x realidade e lógica racional x loucura. Vale ressaltar que essas oposições não se anulam, mas se combinam para que o leitor tenha um momento de base e se escorregue para a ruptura.

Nessas combinações contraditórias nos deparamos com:

  • a pontualidade dos ingleses na figura do coelho que sempre está correndo;
  • a crítica às várias histórias para crianças que necessariamente carregavam uma moral, visando o comportamento social e a educação moral;
  • os questionamentos ontológicos do tipo “quem sou eu?”, associados aos momentos em que Alice cresce e diminui de tamanho diante dos desafios com os quais se depara;
  • a loucura e a insensatez presentes na cena famosa do chá com o Chapeleiro, que também se remete ao costume inglês do chá das cinco;
  • a crítica ao comportamento de sua sociedade em julgar/sentenciar/condenar antes que se tenha o veredicto (inocente ou culpado), leia-se: “não tenho provas, mas tenho convicção que…”screen-shot-2014-09-15-at-11-29-14

Há ainda uma relação interessante dos livros do Carroll com jogos que envolvem raciocínio lógico, como o jogo de cartas e o xadrez, ao tornar suas respectivas peças em personagens. Talvez, e aqui deixo toda a minha reputação como leitora vulnerável, a escolha esteja associada ao fato de que esses jogos representem sociedades aristocráticas (Rei, rainha, coringa, valete, dama, bispo, peão), tal como a inglesa, em que cada elemento desempenhava uma função determinada dentro de um conjunto de regras.

Alice causa uma ruptura no sistema de regras do jogo-sociedade com sua personalidade questionadora, imaginativa, crítica, sonhadora, capaz de inverter a ordem natural das coisas, chegando a se aproximar da loucura.

Ora! E quantos por aí não foram considerados loucos somente pelo fato de serem subversivos e transgressores do sistema de regras vigente?

Será se já temos razões suficientes para ler o livro? Espera… Acrescente um pouco de animais estranhos, um gato que sorri, uma rainha de copas tirana, misture tudo até homogeneizar. Pronto, agora pode se servir. Não esqueça o chá!

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

 

 

 

 

As vozes de “As Meninas” | Lygia Fagundes Telles

Em “As Meninas”, Lygia Fagundes Telles nos presenteia com a história de três moças universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara que, apesar de serem bastante diferentes umas das outras, mantêm uma intensa amizade.

O romance, publicado em 1973, período auge da repressão na Ditadura Militar, tem como plano de fundo a contemporaneidade do governo ditatorial e, embora não aborde o tema em toda a sua complexidade, é parte fundamental da relação das meninas. O contexto é tão presente e tão bem costurado à trama que dificilmente as diferenças entre as personagens teriam o mesmo peso ou destaque caso o momento histórico fosse mero acessório.

Outro ponto forte do livro é a escolha da narração. O enredo em si não possui muitas ações e reviravoltas, pois trata-se de um livro de imersão profunda nas relações e na psicologia das personagens.

E qual seria a melhor maneira de conhecermos essas meninas se não for por elas mesmas? Sim. Lorena, Lia e Ana Clara são personagens narradoras e quase não vemos marcas de um narrador onisciente agarrando as rédeas da história.

Por meio de um jogo polifônico, em que as vozes das três meninas se confundem, temos acesso à singularidade de cada uma delas. Convivemos com suas contradições, anseios e expectativas, ou seja, passamos a ouvi-las e conhecê-las de tal forma que se cria a ilusão de que suas existências sejam reais. Para melhor entendermos esse aspecto da linguagem, seguem as palavras de Paulo Bezerra:

“O que caracteriza a polifonia é a posição do autor como regente do grande coro de vozes que participam do processo dialógico. Mas esse regente é dotado de um ativismo especial, rege vozes que ele cria ou recria, mas deixa que se manifestem com autonomia e revelem no homem um outro […]”. – Paulo Bezerra

Em um período de amordaçamento, repressão e censura, dar voz autêntica a três mulheres de classes sociais e trajetórias diferentes faz todo o sentido, pois, a polifonia permite que as meninas, por meio do diálogo e da intersecção de suas vozes, tenham autoconsciência de si mesmas e passem a agir como sujeitos da própria história de vida que é também política.

“A posição da qual se narra e se constrói a representação ou se comunica algo deve nortear-se em face de sujeitos isônomos, investidos de plenos direitos, um mundo de consciências individuais caracterizadas por forte grau de autonomia e vida própria, pois a consciência do autor não transforma a própria consciência dos outros – das personagens – em objetos de sua própria consciência e de seu próprio discurso, não conclui essas consciências porque não as concebe como entidades estáticas e sim como marca identitária do indivíduo. […] Não podemos “espiar o indivíduo, ouvir às escondidas suas conversas”, assim como não podemos “predeterminar suas confissões”, pois se assim procedêssemos estaríamos cometendo uma violência contra as personagens e violando seu estatuto de independência no convívio polifônico.” – Paulo Bezerra

As consonâncias presentes no livro trazem à tona as crises sociais das instituições mais caras ao período: a Família e a Juventude. Na contramão do projeto do regime em conservar a família tradicional brasileira e a juventude sob os preceitos morais e cívicos, a obra aborda o rearranjo das famílias após o divórcio, assim como a maternidade sem o casamento. A juventude, representada pelas moças universitárias, é também contrária ao Estado quando são abordadas a questão do uso de drogas, da homossexualidade e da liberdade sexual.

Outra consonância é a relação das meninas com o catolicismo, o que mostra um pouco a variação do papel da Igreja na Ditadura Militar. As três moram em um pensionato de freiras progressistas, que ao lado delas compõem um quadro complexo da realidade do período, apresentando percepções sobre virgindade, sexo, desejo, pecado etc. Na época, freiras e padres progressistas, ou seja, contrários ao regime e normalmente de esquerda, se contrapunham a grupos católicos conservadores que endossavam o projeto político-moral de manter a família e a juventude sob os moldes tradicionais.

Entre tantos gritos, vale a pena o desafio de ler, ou melhor, ouvir o que essas três meninas têm a dizer. Em alguns momentos a leitura pode ficar difícil, não se nega, mas basta o leitor pensar na proposta do diálogo e da alteridade, tão necessárias ao nosso período político, que mudará de ideia e seguirá adiante.

Boa leitura!

Para você ter uma melhor clareza dos conceitos de Polifonia e Dialogismo ver:

BEZERRA, Paulo. Polifonia. In: BRAIT, Beth (org). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2010.

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Link “As Meninas” : https://goo.gl/BzC5dH

Link “Bakhtin: conceitos-chave”: https://goo.gl/reurQP

 


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Olívia de Erico Verissimo, uma brasileira.

É quase impossível falar sobre apenas um aspecto de uma obra tão rica como Olhai os lírios do campo. O romance, publicado em 1938, narra a história de Eugênio, um médico de origem modesta que ao ter notícias do estado terminal de Olívia, seu grande amor, passa a rememorar sua trajetória de vida a caminho da despedida no hospital.

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Enquanto Eugênio faz um check-up de si mesmo, o leitor mergulha em uma Porto Alegre dos anos de 1930, em que temas e tabus, como: casamento, aborto, virgindade, desquite (divórcio no Brasil só em 1977), fascismo, arte moderna, diferenças sociais, entre outros, ajudam a compor uma trama robusta de conflitos.

Tal como em Dom Casmurro, somente conseguimos entrever a personagem feminina (Olívia, Capitu) pela perspectiva do personagem principal (Eugênio, Bentinho) por meio de um exame de consciência. O que diferencia essas obras em paralelo é que a voz de Olívia está exposta, além de nos diálogos, nas cartas deixadas a Eugênio. Ainda assim, não temos acesso na íntegra ao conteúdo das cartas, apenas lemos as passagens que o reviram por dentro.

Incapaz de amar a Deus e até a si mesmo, o médico se sustenta na abstração do que foi Olívia em vida. Para regenerar-se do egoísmo, da mesquinharia e do complexo de inferioridade, o personagem acaba transformando-a em uma Santa, uma mentora que irá guia-lo para o caminho da redenção. Exemplo de fé, altruísmo e dedicação, Olívia parece muitas vezes como inumana.

edição que tinha na casa dos meus pais quando eu não sabia ler.
edição que tinha na casa dos meus pais quando eu não sabia ler.

Embora de caráter divino para ele, Olívia poderia representar um choque para os anos de 1930 (e para hoje?), por se desviar de alguns valores morais tidos como definidores de “pessoas de bem”, “corretas” e “direitas”.

Não é sem motivo que Eugênio diz que o passado dela é obscuro, apenas por não ter sido seu primeiro parceiro sexual. Na história, o leitor desconhece as repercussões sociais do seu relacionamento com o personagem, mas, pelo contexto social e pelas situações que abordam o trinômio virgindade-gravidez-aborto, entende que ser mãe solteira era também um desvio.

Olívia é mulher sem família, é mulher sem origem. Mora de favor na casa de alemães. A tentativa de Eugênio em encontrar seu passado mostra que para “conhecer de fato” alguém era preciso dar origem, saber as procedências da moça. O relacionamento todo tinha sido pautado somente na trajetória dele, mas e a trajetória de Olívia? Nada sabemos. Precisamos?!

“Olívia não tinha irmãos. Nunca lhe falara em nenhum Carlos. Por que motivo estava tal fotografia naquele álbum de recordações? Examinando-a mais de perto, verificava ainda uma vez que a sua superfície esmaltada estava quebrada em muitos pontos, dando a impressão de que a fotografia havia sido um dia amassada talvez por uma mão raivosa. Eugênio não se podia furtar a um sentimento de ciúme, pois tinha desconfiança de que aquele Carlos estava ligado à parte escura do passado de Olívia. Sim, talvez fosse o homem que primeiro a tivera nos braços.” 

 A “transgressão” também está no fato dela ser a única mulher na sala de Eugênio a cursar Medicina. Os colegas de curso apenas conseguem aceitar sua presença quando passam a trata-la como um colega, um companheiro (escrito em itálico no livro, mostrando o destaque do autor para a diferença dos papéis de gênero).

O foco narrativo de Eugênio diz muito do olhar da sociedade que precisa assimilar Olívia, mas não consegue. Sem sabermos narrativamente (começo-meio-fim) a trajetória dela, nos encantamos com seus ensinamentos de Fé e com os obstáculos que é viver, sendo tudo isso: mulher, pobre, mãe solteira. Sua coragem e sabedoria são imensas, quando diz que “a vida começa todos os dias” e, mais ainda no trecho:

“Procurar nossa felicidade através da felicidade dos outros – aconselhava Olívia noutra carta sem data. – Não estou pregando o ascetismo, a santidade, não estou elogiando o puro espírito de sacrifício e renúncia. Tudo isso seria inumano, significaria ainda uma fuga da vida. Mas o que procuro, o que desejo, é segurar a vida pelos ombros e estreitá-la contra o peito, beijá-la na face. Vida, entretanto, não é o ambiente em que te achas. As maneiras estudadas, as frases convencionais, o excesso de conforto, os perfumes caros e a preocupação do dinheiro são apenas uma péssima contrafação da vida. Buscar a poesia da vida será coisa que tenha nexo? ” 

Mas afinal, se nem santa, nem prostituta, quem é Dra. Olívia?

Apenas mais uma brasileira.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !