O que eu senti quando li A Amiga Genial de Elena Ferrante

Faz tempo que não apareço por aqui, mas o motivo de minha falta é bom. Fiquei grávida, trabalhei até o último segundo antes de dar à luz. Agora, eu e a bebê somos um time e por isso consegui ler e também escrever sobre essa obra. 😊

Antes de pedir o livro de presente para um amigo, fiquei realmente na dúvida se o frenesi em volta dessa Série Napolitana tinha um fundamento estético de qualidade. Via os booktubers que acompanho se tornarem fãs de uma hora para outra e fiquei seduzida pelo hype que toda essa empolgação criou.

O(a) autor(a) – parece que é autora – é desconhecido enquanto pessoa. Elena Ferrante nem é seu verdadeiro nome, mas esse pseudônimo tem percorrido o mundo e feito sucesso de vendas desde o lançamento de L’amica Geniale, em 2011, na Itália.

Não é sem razão então a paixão que surge nos leitores de Ferrante. Eu mesma, preciso confessar, fiquei arrasada quando terminei de ler o primeiro volume sem ter em mãos o segundo. Terminei a leitura ontem e somente o ímpeto de falar dele pode ajudar a curar esse sentimento de abandono.

Durante duas semanas, entre mamadas e dormidas quebradas, Lila e Lenu foram minhas companheiras. Fizeram-me sentir o calor de Nápoles, querer falar italiano novamente e até conhecer o Vesúvio.

Nápoles

Não só isso, ao ler a história dessas duas amigas fui logo seduzida por uma narradora veloz, franca e direta. Eu realmente gosto quando o autor cria um personagem narrador que te carrega para dentro da história e te torna parte dela. A amiga genial é assim. Lenu vai levando a gente para conhecer a sua gente e o seu bairro e, principalmente, sua amiga Lila.

A história começa na vida adulta quando o filho de Lila, Rino, liga para Lenu e diz que a mãe sumiu, levando tudo, sem deixar vestígio algum. Parece que para não se suicidar a personagem tenta de fato sumir da face da Terra, mas a amiga Elena Greco, Lenu, decide reverter essa situação e começa a narrar tudo, desde a infância, quando conheceu Lila Cerullo, até a maturidade. Na contramão do sumiço da amiga, vemos uma tentativa de registrar com o coração a existência dela e o surgimento de uma amizade marcada pela importância que Elena Greco dá à Lila.

Do texto é possível extrair algumas questões interessantes que envolve a geração pós-guerra. O trabalho e a função que as meninas, Lila e Lenu, têm que desempenhar diante da família e dos amigos é o terreno onde essas questões se desdobram. Trabalhar duro parece ser a solução concreta para viver e desenvolver o bairro, enquanto que o estudo parece algo irreal, inútil e inacessível, sem resultados imediatos para a sobrevivência. Os relacionamentos amorosos e os casamentos também são (de)formantes na história das meninas.

Assim, a amizade das duas vai sendo transformada em relações de poder com os rapazes, com os professores, com as famílias, e, também uma com a outra. Pelo o olhar de Elena Greco, a Lenu, vemos a espiral que é sua relação com Lila. Se completam, se invejam, se destroem, se amam, se odeiam? Difícil responder. Talvez, seja tudo isso junto. É desse suco que temos a impressão de que a relação de amizade entre as duas é real como as que travamos na vida.

Como conhecemos Lila através de Lenu, sentimos que Lila é superior, mais segura de si, mais inteligente, mais bonita, mais tudo. Enquanto que Elena parece sempre uma sombra ou um espelho tentando refletir um espectro da amiga. Sua identidade enquanto pessoa vai se formando a partir dessa amizade. Vemos aqui o retrato da tradicional comparação que fazemos quando conhecemos uma pessoa do nosso mesmo gênero. Aqui o mundo do feminino pulsa em sua cara mais conhecida: a competição.

Uma é princesa a outra é a bruxa, em outro momento uma é santa, a outra a devassa, e aqui seguimos enlouquecidas por ver que esses traços dissonantes são acordes constituintes de cada uma das personagens.

O mais interessante ainda é notar que por mais detalhes que a narrativa nos traga sobre o que acontece com cada uma das meninas, mais e mais nos parece que as duas nos são desconhecidas. As facetas mostradas são complexas, mas unilaterais. Conhecemos, talvez, um tanto melhor a narradora fantástica que é Lenu, pois ela é o prisma que nos parece mais rico do que a pintura engrandecedora, ainda que complexa, da amiga. Mergulhamos no íntimo da autoria de seus sentimentos ao repassar a amizade para o papel e no final nos perguntamos quem é de fato a Amiga Genial, Lina ou Lenu?

Depois repasso aqui o que vai me causar o restante da Tetralogia! No mais, descobri que essa Série Napolitana vai virar série de TV no próximo ano. De qualquer forma, fica aqui a indicação de leitura antes que vire imagem, para não perder nenhum fio dessa narrativa!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com e no ig @leituresca!

 

Jornalismo: um novo caminho, novas perspectivas

O Jornalismo e um novo jeito de falar sobre

literatura no Leituresca.

O ano de 2016 me ensinou uma lição muito preciosa:

“Se você fizer algo por reconhecimento ou aprovação dos outros, não faça! A vida não é uma sucessão de resultados e respostas prontas. Ela é um caminho cheio de vivências, aproveite.”

Depois que passei a aceitar essa ideia, muitos impedimentos que não eram reais, e sim impostos, foram embora e a vida começou a fluir. Com as leituras está sendo a mesma coisa, pois não preciso mais me preocupar em atingir resultados astronômicos, cumprindo listas de livros e comprando mais e mais, enchendo a estante de possibilidades que, certamente, iriam me sufocar mais tarde.

Jornalismo

Com a formação em Letras descobri minha paixão de ser revisora e consultora literária, ficando ainda mais próxima da Literatura, que movimenta a minha vida. Aqui você pode dar uma olhada de como é trabalhar com revisão e consultoria. E por falar nisso, hoje, dia 28 de março, é dia do Revisor de Textos!

Foi por meio dessas duas funções que encontrei o meu lugar no mundo, que pago minhas continhas e que agora possibilitou investir mais um pouquinho na minha carreira com o Jornalismo.

Por isso, o “atraso” nas resenhas e diários de leitura. Estou vivendo aqui a leitura, estou vivendo aqui um livro. Depois conto quais serão as próximas resenhas…

Mas agora é hora de atualizar o status da bio, digamos assim. A ideia de se trabalhar com diversos tipos de mídias sempre acelerou meu coração, imagina agora com aulas de fotografia, rádio, tv e mídias digitais! É claro que vou aproveitar o máximo possível do Jornalismo para incrementar o Leituresca.com e a minha profissão freelancer (frila) de revisora de textos.

Acredito que desse casamento, Jornalismo e Literatura, muitas portas poderão se abrir. O objetivo maior ainda continua sendo o de se trabalhar as diversas formas de linguagem para fomentar a Literatura de maneira cada vez mais acessível. Não é mesmo à toa que muitos escritores brasileiros encontram no Jornalismo uma outra forma de agir no mundo por meio das letras.

Jornalismo Literatura

Quem sabe um dia as letras transbordem tanto dentro de mim que passem a compor um livro de minha autoria?

Vamos andando…

Só posso garantir que vocês que acompanham o Leituresca sentirão que alguma coisa vai mudar e espero que seja para melhor. Com o Jornalismo pretendo tornar mais acessível o conteúdo de qualidade e robustez que as Letras trouxeram para mim.

Não pensem que vou manipular o mundo inteiro e tudo o que for visto aqui terá segundas, terceiras ou quartas intensões. Não! Ficaria apenas muito contente de ser mais lida e de, principalmente, incentivá-los a ler mais, a não chegar perdido em uma livraria, feira ou biblioteca. A ideia é deixar vocês com água na boca para ler os livros resenhados e encontrar neles um alimento para a vida!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

As redes sociais atrapalham a sua leitura? | Vivências Literárias

Antes de responder essa pergunta, conte quantos dispositivos móveis você tem ao seu redor, e não esqueça de incluir o computador e a televisão que você assiste de vez em quando. Contou? É…pois é. Aqui em casa tenho (vamos lá): 1 smartphone; 1 notebook; 1 tablet (que substitui por um Kindle). Além da tevê.

Até aí tudo bem. O problema começa quando se conta quanto tempo é gasto em redes sociais ou meios virtuais (facebook, twitter, whats, instagram, snapchat, e-mail…) e em serviços de stream de jogos, de filmes e séries também.

Junte tudo isso com o tempo que você gasta no trabalho, atendendo telefonemas ou na frente do pc; com o tempo no supermercado, nas filas da vida. Ah, você faz atividade física? Acrescenta aí. Faz faculdade também? É mãe, é pai? Eita!

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Fica difícil depois de um dia cheio sentar em uma cadeira e ler um livro por uma hora sem interrupções, não é? Justamente porque a culpa não está nas redes sociais, no netflix ou na TV, nem no seu trabalho ou nos seus estudos, que estão te roubando desse prazer imenso que é ler. Seus filhos (pasmem!) também não são culpados por te afastarem para sempre dos livros.

De quem é a culpa?

Antes de sair apontando o dedo… é bom sabermos que alguns fatores estão contribuindo para despedirmos a literatura do nosso cotidiano. A atenção que dispensamos para atividades de concentração, que exigem uma postura serena, de compenetração e calma está cada vez menor. Falta paciência e geralmente estamos muito pilhados ou estressados para isso, já que associamos essa diminuição de ritmo ao sono.

Um outro fator interessante é que associamos a leitura de textos não informativos a algo inútil. Sempre pensamos: “Não tenho tempo para isso!” por mais que o propósito de se ler seja variado – divertimento, terapia, prazer, etc. A verdade é que as prioridades mudam quando as atividades estão relacionadas à saúde mental.

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Por trás dessa expressão de não se ter tempo estão valores muito difíceis de serem driblados. Nos acostumamos à rapidez, à necessidade, à utilidade, à produção, à eficiência, à praticidade… Fomos, enfim, afeiçoados a resolução de problemas e, muitas vezes, parece que viver se reduz a resolver situações complicadas e receber recompensas. Aparentemente, tudo que está fora desse padrão não merece dedicação, porque não tem “troco”; no máximo, serve para se glorificar, dizer que tem ou que leu, que conhece, que comprou…

Por conta desses valores que interiorizamos tanto, gerir o nosso tempo ficou mil vezes pior. Ainda assim, diante de tantas coisas para se fazer, conseguimos ficar entediados! Infelizmente, não tenho a resposta para o tédio.

O que quero sinalizar aqui é que para se ler mais e melhor não precisamos demonizar a internet e tudo o que ela nos oferece, mas precisamos perceber que os valores e as crenças associados à “pressa de se fazer ou se ter algo” são nefastos se forem exclusivos e se eles também estiverem permeando nossas leituras e nossas atividades estéticas tanto de criação como de apreciação.

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A dica que pode dar certo, mas que ainda não testei, é a de separar um tempo na semana para cada coisa, sem que elas atrapalhem umas às outras ou virem uma obrigação opressora. Por isso, não precisamos de maratonas de leituras, nem de listas quilométricas de livros, de filmes, de HQ, de séries e nem de ler três ou mais livros ao mesmo tempo. Nada disso!

A prioridade dessa prática é a valorização da experiência e da vivência de cada momento no seu devido tempo, ou seja, atribuir sentido e significado ao que você faz com o seu tempo de vida.

Então é isso, relaxa, respira e abra a primeira página…


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Sobre Rodas | Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva

Ler literatura brasileira se tornou tão viciante que mal me lembro dos grandes clássicos da literatura universal que tenho na estante. Sem querer fazer uma hierarquia entre as literaturas, percebo que, cada vez mais, para ser uma escritora “viajada” tenho que mergulhar na dicção da literatura brasileira contemporânea.

A tônica e cadência da leitura se encaixam perfeitamente em algo que já carrego dentro de mim. E o que seria? Ainda não sei…mas compreendo que não é apenas uma identificação de nacionalidade. É mais do que isso: é uma forma particular e ao mesmo tempo conjugada de se ver a vida e o cotidiano. Particular, porque é singular de cada escritor e conjugada, porque de alguma forma há muita empatia entre a nossas conversas (leitura).

Foi assim com o romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho. Fisgada já na primeira linha, passava horas e horas lendo as histórias desse garoto namorador que por conta do “destino” ficou paraplégico aos 20 anos depois de pular de cabeça em um lago raso e fraturar a medula. Contrariando a expectativa do leitor de compadecer-se do “coitado”, Marcelo faz com que a gente consiga sorrir diante das suas percepções sobre essa situação crítica.

 

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A gravidade do problema passa para a história, mas não como algo sério ou sisudo demais, chocando o leitor de sobrancelhas armadas, ao ponto de evocar o sentimento de pena. Marcelo “transa” a situação mais complicada de sua vida com o humor de um garoto que viveu e continuava vivendo relacionamentos indefinidos com as mulheres, muitas amizades e o amor à vida.

Visto como um livro de memórias, ele não se concentra apenas no período de recuperação de Marcelo, mas mergulha ainda na infância marcada pelo sumiço do pai pela Ditadura Militar, o deputado Rubens Paiva, que somente em 2014 com a Comissão da Verdade teve seu caso esclarecido. Além disso, o livro conta sobre a juventude do Autor enquanto universitário no curso de engenharia agrícola, participando ativamente das lutas políticas estudantis na Universidade de Campinas, e, ainda, suas vivências como músico de paixão.

Em meio a vários obstáculos novos, o sexo é abordado constantemente, parece até que Marcelo sabe qual a primeira coisa que o leitor vai pensar: Será que um tetraplégico consegue fazer sexo? Sente prazer? Tem ereção? (Vai bem me dizer que você sordidamente nunca se perguntou sobre isso?) Essas são também as principais questões do Autor que vê sua vida mudar radicalmente sem ter a certeza se vai conseguir andar novamente e fazer tudo o que os outros fazem.

Com um humor leve e uma linguagem despojada cheia de gírias da década de 1980, o leitor é conduzido a compreender que Marcelo não está ali contando sua jornada de herói, não se considera nem mesmo como um exemplo de superação. Sem dó algum, ele mesmo vai examinando a medula espinhal de sua personalidade imatura, machista, inconsequente e cheia de fraquezas.

A beleza do livro está certamente no sentimento de gratidão que acompanha cada conquista do corpo, na manutenção das relações de amizade que vivificam sua rotina minimalista e na presença da família, relembrando-nos o que é realmente importante valorizar na vida e que cada respiração é motivo suficiente para celebrá-la. Aqui com certeza a empatia aconteceu.


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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

A peregrinação interior | Quarenta Dias de Maria Valéria Rezende

É preciso deixar claro que depois de ler Quarenta Dias não é mais possível olhar para um caderno da Barbie nas Americanas e agir normalmente.

 

O livro, vencedor do 57º Prêmio Jabuti, conta a história de Alice, 60 anos, professora de línguas, aposentada e viúva, que foi levada de João Pessoa para Porto Alegre pela filha, tendo como missão ser avó profissional para que a mãe da criança continuasse sua carreira acadêmica.

Maria Valéria Rezende é freira desde os 24 anos de idade, não é, portanto, sem propósito o título do livro. A autora tem conhecimento de causa do que quarenta dias significa no universo bíblico. Esse foi o período em que Jesus passou no deserto, o qual simbolicamente os cristãos católicos retomam no período pós-Carnaval e pré-Páscoa.

Alice, narradora-personagem, também sai em peregrinação durante quarenta dias pelas ruas de Porto Alegre, passando em becos, alojamentos de construtoras, rodoviária e até saguão de pronto socorro em busca de Cícero Araújo, filho perdido da manicure de uma amiga lá de João Pessoa.

Bastou isso como pretexto para Alice sair daquela vida emprestada, daquele apartamento arranjado e sem história, daquela função imposta de ser avó. Na verdade, perdida de si mesma, sem o endereço da sua nova casa em uma cidade desconhecida, Alice preferiu passar quarenta dias em mendicância a ter que voltar para a nova situação que a vida lhe impunha.

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No entanto, ao contrário da figura bíblica, o terreno em que ela peregrinou era fértil, dele brota várias percepções críticas do cotidiano, como as de que lá no Sul, os de cá do Nordeste são considerados todos iguais, de que também tem gaúcho negro e de que as dicotomias entre as Regiões embalam mais proximidades e interseções do que se imagina.

“[…] desde aquela manhã, no meio daquela agitação que eu mesma causara com a minha pergunta, vinha ganhando uma calma por dentro que havia muito não sentia, as falas, emoções e estranhezas do mundo maior me chamando pra fora e a minha própria amargura encolhendo-se num canto discreto. Estranhezas, eu disse? Engraçado é que eu tinha a impressão de, afinal, quase nada ver de tão estranho assim, neste Sul tão longe de casa, o povo misturado de todas as cores, os petiscos de pobre, aquele tanto de negros gaúchos que eu nunca soube que existiam, violência e solidariedade, pobreza e necessidade, iguais às da minha terra, a pedir milagres. ” (Pág., 120)

 O olhar para o mundo não é de denúncia social – do tipo que direciona o seu ponto de vista frio sobre a condição de existência do outro, estando munido do direito de falar o que é melhor para a vida alheia –  ao contrário, Maria Valéria Rezende, por meio de Alice, tece uma narrativa vívida do que é não se sentir abrigado em si mesmo, não poder fazer escolhas e ter que exercer uma função que lhe é imposta, tendo apenas como alternativa legítima, digna e autêntica, diga-se de passagem, viver no entre-lugar, na transitoriedade das ruas, durante quarenta dias em busca de si mesma. Àquela dor de ter que ceder, de aceitar o que é obrigado sem antes digerir, foi preferível fugir e preencher o vazio com a dor crua do mundo.

“Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos. […] A essa altura, meu caso, da minha própria filha, desaparecida simplesmente porque eu me recusava a ter mais notícias dela, começava a me parecer banal e mais uma vez me deixava levar por outra pessoa, agora, porém, sem nenhuma revolta, nem pensei em recusar, fui, pra onde me puxaram, decerto satisfeita por não ter de me emocionar com mais nada senão Cícero Araújo […]. ” (Pág., 118)

E o caderno da Barbie? Ora, pois num é dele que temos notícias de tudo! A boneca loira de olhos azuis da capa do caderno serviu ali para Alice como um ato de ressureição, a conceder o auto perdão depois da penitência. Era preciso colocar para fora, expurgar a experiência, concretizar a dor na escrita, para que a olhando de fora, pudesse facilitar o entendimento do que está dentro. O caderno da Barbie é miraculoso.

“E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo pra fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda pra lá e pra cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e canta e arenga e escarra e fala e fode e fala e vende e fala e sangra e se vende e sonha e morre e ressuscita sem parar.” (Pág., 14)

Como não se surpreender com a leveza da narrativa da escritora, com a plasticidade da linguagem que sai natural, mas que revela no fundo que só sabe brincar com a linguagem e transgredir, criar novos sentidos e formas, aquele que domina e conhece a norma e suas fissuras. De contraponto fica o questionamento de que não é preciso muita coisa para escrever o que está nos afligindo; basta uma mente, sã ou não, um caderno, da Barbie, de preferência, e uma caneta. O resto, vem depois.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

A criança de 150 anos | Alice de Lewis Carroll

A pior coisa do mundo é sabermos tudo sobre a vida de alguém que não conhecemos! Afinal, de que adianta? Essa era a minha relação com o livro Aventuras de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. Uma fofoca pela metade!

Por ser uma referência desde o filme de Walt Disney de 1951, facilmente me deparo com sua imagem em cadernos, blusas, pingentes, etc., mas nunca parei para ler de fato essa mocinha de mais de 150 anos. Apesar da idade, Alice não caducou. A irreverência de sua história continua a cativar aqueles que se predispõem a perseguir o coelho branco e ler o livro.

A obra foi publicada em 1865 e com a ajuda das ilustrações de John Tenniel, importante ilustrador da época, inaugura a estética do nonsense, ao mesmo tempo em que abre as portas do mercado editorial inglês para livros voltados especificamente para o divertimento das crianças.

O enredo começa com Alice já questionando para que serve um livro sem diálogos e sem figuras. Se essa questão não é a razão de ser da literatura infantil, qual seria? Entediada ao lado da irmã que lia, Alice de repente é surpreendida por um coelho branco de colete e de relógio de bolso, reclamando que está atrasado. Basta esse mote para que qualquer criança ou adulto fique ardendo de curiosidade e continue a ler o livro. (É claro que se o livro tivesse sido lançado ontem a curiosidade seria muito maior!)

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Antes que se diga algo a mais sobre a história, é importante que o leitor saiba que há dois caminhos de leitura que podem vez por outra se cruzarem. Um dos caminhos é ler viajando nas imagens absurdas e até mesmo psicodélicas sem a preocupação com o sentido ou com o significado por trás de cada cena; o outro caminho é ler parando para pensar na crítica à sociedade vitoriana e nos possíveis questionamentos existenciais que a obra suscita.

Qualquer um dos percursos escolhidos e até a intersecção deles são suficientes para que o leitor se depare com as principais contradições trabalhadas no livro: sonho x realidade e lógica racional x loucura. Vale ressaltar que essas oposições não se anulam, mas se combinam para que o leitor tenha um momento de base e se escorregue para a ruptura.

Nessas combinações contraditórias nos deparamos com:

  • a pontualidade dos ingleses na figura do coelho que sempre está correndo;
  • a crítica às várias histórias para crianças que necessariamente carregavam uma moral, visando o comportamento social e a educação moral;
  • os questionamentos ontológicos do tipo “quem sou eu?”, associados aos momentos em que Alice cresce e diminui de tamanho diante dos desafios com os quais se depara;
  • a loucura e a insensatez presentes na cena famosa do chá com o Chapeleiro, que também se remete ao costume inglês do chá das cinco;
  • a crítica ao comportamento de sua sociedade em julgar/sentenciar/condenar antes que se tenha o veredicto (inocente ou culpado), leia-se: “não tenho provas, mas tenho convicção que…”screen-shot-2014-09-15-at-11-29-14

Há ainda uma relação interessante dos livros do Carroll com jogos que envolvem raciocínio lógico, como o jogo de cartas e o xadrez, ao tornar suas respectivas peças em personagens. Talvez, e aqui deixo toda a minha reputação como leitora vulnerável, a escolha esteja associada ao fato de que esses jogos representem sociedades aristocráticas (Rei, rainha, coringa, valete, dama, bispo, peão), tal como a inglesa, em que cada elemento desempenhava uma função determinada dentro de um conjunto de regras.

Alice causa uma ruptura no sistema de regras do jogo-sociedade com sua personalidade questionadora, imaginativa, crítica, sonhadora, capaz de inverter a ordem natural das coisas, chegando a se aproximar da loucura.

Ora! E quantos por aí não foram considerados loucos somente pelo fato de serem subversivos e transgressores do sistema de regras vigente?

Será se já temos razões suficientes para ler o livro? Espera… Acrescente um pouco de animais estranhos, um gato que sorri, uma rainha de copas tirana, misture tudo até homogeneizar. Pronto, agora pode se servir. Não esqueça o chá!

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !