O que eu senti quando li A Amiga Genial de Elena Ferrante

Faz tempo que não apareço por aqui, mas o motivo de minha falta é bom. Fiquei grávida, trabalhei até o último segundo antes de dar à luz. Agora, eu e a bebê somos um time e por isso consegui ler e também escrever sobre essa obra. 😊

Antes de pedir o livro de presente para um amigo, fiquei realmente na dúvida se o frenesi em volta dessa Série Napolitana tinha um fundamento estético de qualidade. Via os booktubers que acompanho se tornarem fãs de uma hora para outra e fiquei seduzida pelo hype que toda essa empolgação criou.

O(a) autor(a) – parece que é autora – é desconhecido enquanto pessoa. Elena Ferrante nem é seu verdadeiro nome, mas esse pseudônimo tem percorrido o mundo e feito sucesso de vendas desde o lançamento de L’amica Geniale, em 2011, na Itália.

Não é sem razão então a paixão que surge nos leitores de Ferrante. Eu mesma, preciso confessar, fiquei arrasada quando terminei de ler o primeiro volume sem ter em mãos o segundo. Terminei a leitura ontem e somente o ímpeto de falar dele pode ajudar a curar esse sentimento de abandono.

Durante duas semanas, entre mamadas e dormidas quebradas, Lila e Lenu foram minhas companheiras. Fizeram-me sentir o calor de Nápoles, querer falar italiano novamente e até conhecer o Vesúvio.

Nápoles

Não só isso, ao ler a história dessas duas amigas fui logo seduzida por uma narradora veloz, franca e direta. Eu realmente gosto quando o autor cria um personagem narrador que te carrega para dentro da história e te torna parte dela. A amiga genial é assim. Lenu vai levando a gente para conhecer a sua gente e o seu bairro e, principalmente, sua amiga Lila.

A história começa na vida adulta quando o filho de Lila, Rino, liga para Lenu e diz que a mãe sumiu, levando tudo, sem deixar vestígio algum. Parece que para não se suicidar a personagem tenta de fato sumir da face da Terra, mas a amiga Elena Greco, Lenu, decide reverter essa situação e começa a narrar tudo, desde a infância, quando conheceu Lila Cerullo, até a maturidade. Na contramão do sumiço da amiga, vemos uma tentativa de registrar com o coração a existência dela e o surgimento de uma amizade marcada pela importância que Elena Greco dá à Lila.

Do texto é possível extrair algumas questões interessantes que envolve a geração pós-guerra. O trabalho e a função que as meninas, Lila e Lenu, têm que desempenhar diante da família e dos amigos é o terreno onde essas questões se desdobram. Trabalhar duro parece ser a solução concreta para viver e desenvolver o bairro, enquanto que o estudo parece algo irreal, inútil e inacessível, sem resultados imediatos para a sobrevivência. Os relacionamentos amorosos e os casamentos também são (de)formantes na história das meninas.

Assim, a amizade das duas vai sendo transformada em relações de poder com os rapazes, com os professores, com as famílias, e, também uma com a outra. Pelo o olhar de Elena Greco, a Lenu, vemos a espiral que é sua relação com Lila. Se completam, se invejam, se destroem, se amam, se odeiam? Difícil responder. Talvez, seja tudo isso junto. É desse suco que temos a impressão de que a relação de amizade entre as duas é real como as que travamos na vida.

Como conhecemos Lila através de Lenu, sentimos que Lila é superior, mais segura de si, mais inteligente, mais bonita, mais tudo. Enquanto que Elena parece sempre uma sombra ou um espelho tentando refletir um espectro da amiga. Sua identidade enquanto pessoa vai se formando a partir dessa amizade. Vemos aqui o retrato da tradicional comparação que fazemos quando conhecemos uma pessoa do nosso mesmo gênero. Aqui o mundo do feminino pulsa em sua cara mais conhecida: a competição.

Uma é princesa a outra é a bruxa, em outro momento uma é santa, a outra a devassa, e aqui seguimos enlouquecidas por ver que esses traços dissonantes são acordes constituintes de cada uma das personagens.

O mais interessante ainda é notar que por mais detalhes que a narrativa nos traga sobre o que acontece com cada uma das meninas, mais e mais nos parece que as duas nos são desconhecidas. As facetas mostradas são complexas, mas unilaterais. Conhecemos, talvez, um tanto melhor a narradora fantástica que é Lenu, pois ela é o prisma que nos parece mais rico do que a pintura engrandecedora, ainda que complexa, da amiga. Mergulhamos no íntimo da autoria de seus sentimentos ao repassar a amizade para o papel e no final nos perguntamos quem é de fato a Amiga Genial, Lina ou Lenu?

Depois repasso aqui o que vai me causar o restante da Tetralogia! No mais, descobri que essa Série Napolitana vai virar série de TV no próximo ano. De qualquer forma, fica aqui a indicação de leitura antes que vire imagem, para não perder nenhum fio dessa narrativa!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com e no ig @leituresca!

 

A peregrinação interior | Quarenta Dias de Maria Valéria Rezende

É preciso deixar claro que depois de ler Quarenta Dias não é mais possível olhar para um caderno da Barbie nas Americanas e agir normalmente.

 

O livro, vencedor do 57º Prêmio Jabuti, conta a história de Alice, 60 anos, professora de línguas, aposentada e viúva, que foi levada de João Pessoa para Porto Alegre pela filha, tendo como missão ser avó profissional para que a mãe da criança continuasse sua carreira acadêmica.

Maria Valéria Rezende é freira desde os 24 anos de idade, não é, portanto, sem propósito o título do livro. A autora tem conhecimento de causa do que quarenta dias significa no universo bíblico. Esse foi o período em que Jesus passou no deserto, o qual simbolicamente os cristãos católicos retomam no período pós-Carnaval e pré-Páscoa.

Alice, narradora-personagem, também sai em peregrinação durante quarenta dias pelas ruas de Porto Alegre, passando em becos, alojamentos de construtoras, rodoviária e até saguão de pronto socorro em busca de Cícero Araújo, filho perdido da manicure de uma amiga lá de João Pessoa.

Bastou isso como pretexto para Alice sair daquela vida emprestada, daquele apartamento arranjado e sem história, daquela função imposta de ser avó. Na verdade, perdida de si mesma, sem o endereço da sua nova casa em uma cidade desconhecida, Alice preferiu passar quarenta dias em mendicância a ter que voltar para a nova situação que a vida lhe impunha.

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No entanto, ao contrário da figura bíblica, o terreno em que ela peregrinou era fértil, dele brota várias percepções críticas do cotidiano, como as de que lá no Sul, os de cá do Nordeste são considerados todos iguais, de que também tem gaúcho negro e de que as dicotomias entre as Regiões embalam mais proximidades e interseções do que se imagina.

“[…] desde aquela manhã, no meio daquela agitação que eu mesma causara com a minha pergunta, vinha ganhando uma calma por dentro que havia muito não sentia, as falas, emoções e estranhezas do mundo maior me chamando pra fora e a minha própria amargura encolhendo-se num canto discreto. Estranhezas, eu disse? Engraçado é que eu tinha a impressão de, afinal, quase nada ver de tão estranho assim, neste Sul tão longe de casa, o povo misturado de todas as cores, os petiscos de pobre, aquele tanto de negros gaúchos que eu nunca soube que existiam, violência e solidariedade, pobreza e necessidade, iguais às da minha terra, a pedir milagres. ” (Pág., 120)

 O olhar para o mundo não é de denúncia social – do tipo que direciona o seu ponto de vista frio sobre a condição de existência do outro, estando munido do direito de falar o que é melhor para a vida alheia –  ao contrário, Maria Valéria Rezende, por meio de Alice, tece uma narrativa vívida do que é não se sentir abrigado em si mesmo, não poder fazer escolhas e ter que exercer uma função que lhe é imposta, tendo apenas como alternativa legítima, digna e autêntica, diga-se de passagem, viver no entre-lugar, na transitoriedade das ruas, durante quarenta dias em busca de si mesma. Àquela dor de ter que ceder, de aceitar o que é obrigado sem antes digerir, foi preferível fugir e preencher o vazio com a dor crua do mundo.

“Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos. […] A essa altura, meu caso, da minha própria filha, desaparecida simplesmente porque eu me recusava a ter mais notícias dela, começava a me parecer banal e mais uma vez me deixava levar por outra pessoa, agora, porém, sem nenhuma revolta, nem pensei em recusar, fui, pra onde me puxaram, decerto satisfeita por não ter de me emocionar com mais nada senão Cícero Araújo […]. ” (Pág., 118)

E o caderno da Barbie? Ora, pois num é dele que temos notícias de tudo! A boneca loira de olhos azuis da capa do caderno serviu ali para Alice como um ato de ressureição, a conceder o auto perdão depois da penitência. Era preciso colocar para fora, expurgar a experiência, concretizar a dor na escrita, para que a olhando de fora, pudesse facilitar o entendimento do que está dentro. O caderno da Barbie é miraculoso.

“E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo pra fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda pra lá e pra cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e canta e arenga e escarra e fala e fode e fala e vende e fala e sangra e se vende e sonha e morre e ressuscita sem parar.” (Pág., 14)

Como não se surpreender com a leveza da narrativa da escritora, com a plasticidade da linguagem que sai natural, mas que revela no fundo que só sabe brincar com a linguagem e transgredir, criar novos sentidos e formas, aquele que domina e conhece a norma e suas fissuras. De contraponto fica o questionamento de que não é preciso muita coisa para escrever o que está nos afligindo; basta uma mente, sã ou não, um caderno, da Barbie, de preferência, e uma caneta. O resto, vem depois.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

A criança de 150 anos | Alice de Lewis Carroll

A pior coisa do mundo é sabermos tudo sobre a vida de alguém que não conhecemos! Afinal, de que adianta? Essa era a minha relação com o livro Aventuras de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. Uma fofoca pela metade!

Por ser uma referência desde o filme de Walt Disney de 1951, facilmente me deparo com sua imagem em cadernos, blusas, pingentes, etc., mas nunca parei para ler de fato essa mocinha de mais de 150 anos. Apesar da idade, Alice não caducou. A irreverência de sua história continua a cativar aqueles que se predispõem a perseguir o coelho branco e ler o livro.

A obra foi publicada em 1865 e com a ajuda das ilustrações de John Tenniel, importante ilustrador da época, inaugura a estética do nonsense, ao mesmo tempo em que abre as portas do mercado editorial inglês para livros voltados especificamente para o divertimento das crianças.

O enredo começa com Alice já questionando para que serve um livro sem diálogos e sem figuras. Se essa questão não é a razão de ser da literatura infantil, qual seria? Entediada ao lado da irmã que lia, Alice de repente é surpreendida por um coelho branco de colete e de relógio de bolso, reclamando que está atrasado. Basta esse mote para que qualquer criança ou adulto fique ardendo de curiosidade e continue a ler o livro. (É claro que se o livro tivesse sido lançado ontem a curiosidade seria muito maior!)

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Antes que se diga algo a mais sobre a história, é importante que o leitor saiba que há dois caminhos de leitura que podem vez por outra se cruzarem. Um dos caminhos é ler viajando nas imagens absurdas e até mesmo psicodélicas sem a preocupação com o sentido ou com o significado por trás de cada cena; o outro caminho é ler parando para pensar na crítica à sociedade vitoriana e nos possíveis questionamentos existenciais que a obra suscita.

Qualquer um dos percursos escolhidos e até a intersecção deles são suficientes para que o leitor se depare com as principais contradições trabalhadas no livro: sonho x realidade e lógica racional x loucura. Vale ressaltar que essas oposições não se anulam, mas se combinam para que o leitor tenha um momento de base e se escorregue para a ruptura.

Nessas combinações contraditórias nos deparamos com:

  • a pontualidade dos ingleses na figura do coelho que sempre está correndo;
  • a crítica às várias histórias para crianças que necessariamente carregavam uma moral, visando o comportamento social e a educação moral;
  • os questionamentos ontológicos do tipo “quem sou eu?”, associados aos momentos em que Alice cresce e diminui de tamanho diante dos desafios com os quais se depara;
  • a loucura e a insensatez presentes na cena famosa do chá com o Chapeleiro, que também se remete ao costume inglês do chá das cinco;
  • a crítica ao comportamento de sua sociedade em julgar/sentenciar/condenar antes que se tenha o veredicto (inocente ou culpado), leia-se: “não tenho provas, mas tenho convicção que…”screen-shot-2014-09-15-at-11-29-14

Há ainda uma relação interessante dos livros do Carroll com jogos que envolvem raciocínio lógico, como o jogo de cartas e o xadrez, ao tornar suas respectivas peças em personagens. Talvez, e aqui deixo toda a minha reputação como leitora vulnerável, a escolha esteja associada ao fato de que esses jogos representem sociedades aristocráticas (Rei, rainha, coringa, valete, dama, bispo, peão), tal como a inglesa, em que cada elemento desempenhava uma função determinada dentro de um conjunto de regras.

Alice causa uma ruptura no sistema de regras do jogo-sociedade com sua personalidade questionadora, imaginativa, crítica, sonhadora, capaz de inverter a ordem natural das coisas, chegando a se aproximar da loucura.

Ora! E quantos por aí não foram considerados loucos somente pelo fato de serem subversivos e transgressores do sistema de regras vigente?

Será se já temos razões suficientes para ler o livro? Espera… Acrescente um pouco de animais estranhos, um gato que sorri, uma rainha de copas tirana, misture tudo até homogeneizar. Pronto, agora pode se servir. Não esqueça o chá!

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

 

 

 

 

As vozes de “As Meninas” | Lygia Fagundes Telles

Em “As Meninas”, Lygia Fagundes Telles nos presenteia com a história de três moças universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara que, apesar de serem bastante diferentes umas das outras, mantêm uma intensa amizade.

O romance, publicado em 1973, período auge da repressão na Ditadura Militar, tem como plano de fundo a contemporaneidade do governo ditatorial e, embora não aborde o tema em toda a sua complexidade, é parte fundamental da relação das meninas. O contexto é tão presente e tão bem costurado à trama que dificilmente as diferenças entre as personagens teriam o mesmo peso ou destaque caso o momento histórico fosse mero acessório.

Outro ponto forte do livro é a escolha da narração. O enredo em si não possui muitas ações e reviravoltas, pois trata-se de um livro de imersão profunda nas relações e na psicologia das personagens.

E qual seria a melhor maneira de conhecermos essas meninas se não for por elas mesmas? Sim. Lorena, Lia e Ana Clara são personagens narradoras e quase não vemos marcas de um narrador onisciente agarrando as rédeas da história.

Por meio de um jogo polifônico, em que as vozes das três meninas se confundem, temos acesso à singularidade de cada uma delas. Convivemos com suas contradições, anseios e expectativas, ou seja, passamos a ouvi-las e conhecê-las de tal forma que se cria a ilusão de que suas existências sejam reais. Para melhor entendermos esse aspecto da linguagem, seguem as palavras de Paulo Bezerra:

“O que caracteriza a polifonia é a posição do autor como regente do grande coro de vozes que participam do processo dialógico. Mas esse regente é dotado de um ativismo especial, rege vozes que ele cria ou recria, mas deixa que se manifestem com autonomia e revelem no homem um outro […]”. – Paulo Bezerra

Em um período de amordaçamento, repressão e censura, dar voz autêntica a três mulheres de classes sociais e trajetórias diferentes faz todo o sentido, pois, a polifonia permite que as meninas, por meio do diálogo e da intersecção de suas vozes, tenham autoconsciência de si mesmas e passem a agir como sujeitos da própria história de vida que é também política.

“A posição da qual se narra e se constrói a representação ou se comunica algo deve nortear-se em face de sujeitos isônomos, investidos de plenos direitos, um mundo de consciências individuais caracterizadas por forte grau de autonomia e vida própria, pois a consciência do autor não transforma a própria consciência dos outros – das personagens – em objetos de sua própria consciência e de seu próprio discurso, não conclui essas consciências porque não as concebe como entidades estáticas e sim como marca identitária do indivíduo. […] Não podemos “espiar o indivíduo, ouvir às escondidas suas conversas”, assim como não podemos “predeterminar suas confissões”, pois se assim procedêssemos estaríamos cometendo uma violência contra as personagens e violando seu estatuto de independência no convívio polifônico.” – Paulo Bezerra

As consonâncias presentes no livro trazem à tona as crises sociais das instituições mais caras ao período: a Família e a Juventude. Na contramão do projeto do regime em conservar a família tradicional brasileira e a juventude sob os preceitos morais e cívicos, a obra aborda o rearranjo das famílias após o divórcio, assim como a maternidade sem o casamento. A juventude, representada pelas moças universitárias, é também contrária ao Estado quando são abordadas a questão do uso de drogas, da homossexualidade e da liberdade sexual.

Outra consonância é a relação das meninas com o catolicismo, o que mostra um pouco a variação do papel da Igreja na Ditadura Militar. As três moram em um pensionato de freiras progressistas, que ao lado delas compõem um quadro complexo da realidade do período, apresentando percepções sobre virgindade, sexo, desejo, pecado etc. Na época, freiras e padres progressistas, ou seja, contrários ao regime e normalmente de esquerda, se contrapunham a grupos católicos conservadores que endossavam o projeto político-moral de manter a família e a juventude sob os moldes tradicionais.

Entre tantos gritos, vale a pena o desafio de ler, ou melhor, ouvir o que essas três meninas têm a dizer. Em alguns momentos a leitura pode ficar difícil, não se nega, mas basta o leitor pensar na proposta do diálogo e da alteridade, tão necessárias ao nosso período político, que mudará de ideia e seguirá adiante.

Boa leitura!

Para você ter uma melhor clareza dos conceitos de Polifonia e Dialogismo ver:

BEZERRA, Paulo. Polifonia. In: BRAIT, Beth (org). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2010.

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Link “Bakhtin: conceitos-chave”: https://goo.gl/reurQP

 


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Hibisco Roxo e seu (re)significar do silêncio

Em Hibisco Roxo, da autora Chimamanda Ngozi Adichie, vemos uma história sobre dogmas e a distância promovida por eles.

O livro Hibisco Roxo da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie nos dá a oportunidade de conhecer a trajetória da vida de Kambili, marcada pela idolatria, pelo fanatismo, pela opressão, e, consequentemente, pela supressão da voz de sua autonomia, revestida em uma visão única do mundo.

Hibisco roxo Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda, por meio de Kambili, personagem-narradora, coloca-nos diante de uma narrativa simples, permeadas de não-ditos que gritam o tempo todo a complexidade de como a vida deve ser encarada: de maneira fluída, sem interdições.

Vestindo algumas situações com palavras (voz), a escrita da autora nigeriana defronta-nos com algo concreto e, ao mesmo tempo, perturbador, com certas situações nuas (silêncio) à espera do leitor para serem ouvidas.

A obra é dividida em quatro movimentos – Quebrando deuses; Falando com nossos espíritos; Os pedaços de deuses; Um silêncio diferente –  que correspondem a perspectiva de Kambili sobre as rupturas e rearranjos das relações de sua família.

A simbologia em Hibisco Roxo

A literatura é repleta de obras que utilizam simbologia própria. Na saga criada por Chimamanda Ngozi Adichie também é possível detectar, por exemplo, o momento onde ocorre uma imersão na memória, provocada durante o Domingo de Ramos, onde a narrativa de Kambili, sem ser em tom confessional, delineia as contradições pertinentes em seu pai Eugene e a formação de uma lacuna em si mesma.

O personagem de Papa Eugene encerra uma postura católica ortodoxa de cunho fundamentalista, vigiando e punindo os filhos e a esposa por meio de agressões físicas chocantes ao leitor.

De certo modo, Kambili e Jaja, seu irmão, veem o pai como homem santo, um “Deus” ou, pelo menos, a personificação dele. Sob sua orientação, a vida dos dois é regida rigorosamente com horários definidos em tabela para os estudos, para as refeições, para as horas em família e para as orações. A disciplina de Eugene é tamanha que pode ser comparada a de um pastor, ordenhando suas ovelhas para o caminho unicamente considerado correto e bom.

“Durante seus sermões, o padre Benedict sempre falava do papa, do meu pai e de Jesus – nessa ordem. Ele usava meu pai para ilustrar os evangelhos.”

Homem rico, íntegro e solidário aos olhos dos demais, Papa era dono, além da fábrica de biscoitos e sucos, do jornal Standart. O único que publicou um editorial crítico a respeito do Golpe que se instaurava no momento, com a ascensão de um chefe de Estado militar na Nigéria. De contraponto a suas práticas opressoras com a família, Papa defendia a “Democracia renovada”.

“Golpes levam a mais golpes, disse Papa, contando-nos sobre os golpes sangrentos dos anos de 1960, que acabaram se transformando em uma guerra civil […]. É claro, disse Papa, que os políticos eram mesmo corruptos, e o Standart já publicara muitas matérias sobre […]. Mas o que nós, nigerianos, precisávamos não era de soldados para nos comandar; precisávamos de uma democracia renovada.”

Como então reagir diante de tão dura educação, vinda de um ídolo?

“Jaja, Mama e eu fomos lá para cima nos trocar. Nossos passos na escada eram tão contidos e silenciosos quanto nossos domingos; o silêncio de esperar que Papa acordasse da sesta para que pudéssemos almoçar; o silêncio da hora da reflexão, quando Papa nos dava uma passagem da Bíblia ou um livro de um dos Pais da Igreja para que lêssemos e pensássemos sobre ele; o silêncio do rosário da noite; o silêncio de ir de carro até a igreja para receber a bênção depois. Mesmo nossa hora da família era silenciosa aos domingos, sem jogos de xadrez ou discussões sobre os jornais, mais apropriada para o Dia do Descanso.”

Uma família que não conversa entre si

Em Hibisco Roxo, sentimos que o silêncio surge como um dogma e que como tal, só poderá ser quebrado por meio de uma ruptura, um choque, mas como? Para mudanças é preciso reconhecer as fissuras no que é cristalizado e naturalizado.

Defender certezas é correr o perigo de apegar-se cegamente a uma visão correta e corretora do mundo, sem perceber que há nuances e, às vezes, profundas diferenças ao redor e é na escuridão de mentes fechadas que não há como ver, sequer entender que é preciso desver o mundo.

Kambili graças ao pai, tem a mentalidade incorporada desde a infância e vive conforme as “leis” sem perceber o perigo de permanecer calada. Por quanto tempo? Poderão ser visíveis as fissuras e rachaduras causadas pela opressão, o medo e a agressão psicológica e física? Tal consciência poderá ser capaz de quebrar um deus/visão?

A vinda da tia Ifeoma e dos primos em Nsukka e com o Avô, Papa-Nnukwu marca um novo momento na obra que nos remete a quebrar nossas próprias origens de mudez.

“Talvez Mama soubesse que não ia mais precisar das estatuetas; que quando Papa atirou o missal em Jaja, não foram apenas elas que se quebraram, mas todo o resto. […] A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de Tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave de liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.”

Se quiserem aumentar o volume dessa leitura e escutar claramente os sons sufocados feitos pelo traço de Chimamanda Ngozi Adichie  é preciso, urgentemente, procurar o Hibisco Roxo e lê-lo!

 

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Gostou da resenha do livro Hibisco Roxo da autora Chimamanda Ngozi Adichie? Se você já leu, que tal dividir comigo sua impressão desse livro marcante? Fique a vontade nos comentários.

 

13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !