AMAZON X JOÃO DORIA: Entenda a disputa

Amazon crítica a “cidade cinza” de Doria e o resultado da disputa se reflete no consumidor e em solidariedade (ou oportunismo?).

No dia 27 de março, a Amazon divulgou seu primeiro comercial brasileiro com a #MovidosPorHistórias.

Para quem assistiu ao vídeo da propaganda, reconhece logo uma provocação à “cidade cinza” de João Doria (PSDB), atual prefeito de SP, que em janeiro deste ano começou uma ação de “limpeza” das vias urbanas paulistas, com a campanha “Cidade Linda”.

A ação incluiu também a pintura de paredes com grafites nos espaços urbanos e a prisão de pichadores. Como ato simbólico, Doria participou da ação, vestindo o mesmo uniforme dos encarregados da tarefa. Veja aqui.

Aproveitando o resultado monocromático da cidade, a Amazon lançou uma promoção de seus e-readers Kindle e de e-books no site, remetendo-se a tela do Kindle, já que a versões mais baratas do aparelho Kindle exibem as folhas e as capas dos livros em tons de cinza e preto e branco.

Amazon

Em resposta a provocação, no dia 28 de março, Doria pediu que a Amazon fizesse doação de livros e de computadores para a prefeitura de São Paulo e afirmou que a postura da empresa é oportunista em vídeo resposta publicado em seu perfil no Facebook.

Doria

Para não deixar passar em branco, a Amazon afirmou que vai doar aparelhos Kindle para instituições de educação e cultura de São Paulo. E sem deixar o consumidor de fora, a Amazon lançou uma lista de e-books gratuitos para que o leitor possa escolher um para baixar no aplicativo da loja Kindle.

Amazon

Além da Amazon, a Kabum! também ofereceu computadores e tablets para o prefeito, via twitter.

Diante dessa disputa, não consegui afirmar nessa situação quem é o oportunista da história, se as empresas, que tendem a lucrar quando sob os holofotes de uma polêmica que as favorecem; ou o prefeito, que aproveitou o ensejo para pedir apoio, mesmo que de forma irônica e conseguiu. No mais, me interessa bastante o fato de que a rede municipal de São Paulo receberá doações para bibliotecas e instituições envolvidas com a educação e a cultura não só pela Amazon, ainda que as paredes continuem cinza.

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Jornalismo: um novo caminho, novas perspectivas

O Jornalismo e um novo jeito de falar sobre

literatura no Leituresca.

O ano de 2016 me ensinou uma lição muito preciosa:

“Se você fizer algo por reconhecimento ou aprovação dos outros, não faça! A vida não é uma sucessão de resultados e respostas prontas. Ela é um caminho cheio de vivências, aproveite.”

Depois que passei a aceitar essa ideia, muitos impedimentos que não eram reais, e sim impostos, foram embora e a vida começou a fluir. Com as leituras está sendo a mesma coisa, pois não preciso mais me preocupar em atingir resultados astronômicos, cumprindo listas de livros e comprando mais e mais, enchendo a estante de possibilidades que, certamente, iriam me sufocar mais tarde.

Jornalismo

Com a formação em Letras descobri minha paixão de ser revisora e consultora literária, ficando ainda mais próxima da Literatura, que movimenta a minha vida. Aqui você pode dar uma olhada de como é trabalhar com revisão e consultoria. E por falar nisso, hoje, dia 28 de março, é dia do Revisor de Textos!

Foi por meio dessas duas funções que encontrei o meu lugar no mundo, que pago minhas continhas e que agora possibilitou investir mais um pouquinho na minha carreira com o Jornalismo.

Por isso, o “atraso” nas resenhas e diários de leitura. Estou vivendo aqui a leitura, estou vivendo aqui um livro. Depois conto quais serão as próximas resenhas…

Mas agora é hora de atualizar o status da bio, digamos assim. A ideia de se trabalhar com diversos tipos de mídias sempre acelerou meu coração, imagina agora com aulas de fotografia, rádio, tv e mídias digitais! É claro que vou aproveitar o máximo possível do Jornalismo para incrementar o Leituresca.com e a minha profissão freelancer (frila) de revisora de textos.

Acredito que desse casamento, Jornalismo e Literatura, muitas portas poderão se abrir. O objetivo maior ainda continua sendo o de se trabalhar as diversas formas de linguagem para fomentar a Literatura de maneira cada vez mais acessível. Não é mesmo à toa que muitos escritores brasileiros encontram no Jornalismo uma outra forma de agir no mundo por meio das letras.

Jornalismo Literatura

Quem sabe um dia as letras transbordem tanto dentro de mim que passem a compor um livro de minha autoria?

Vamos andando…

Só posso garantir que vocês que acompanham o Leituresca sentirão que alguma coisa vai mudar e espero que seja para melhor. Com o Jornalismo pretendo tornar mais acessível o conteúdo de qualidade e robustez que as Letras trouxeram para mim.

Não pensem que vou manipular o mundo inteiro e tudo o que for visto aqui terá segundas, terceiras ou quartas intensões. Não! Ficaria apenas muito contente de ser mais lida e de, principalmente, incentivá-los a ler mais, a não chegar perdido em uma livraria, feira ou biblioteca. A ideia é deixar vocês com água na boca para ler os livros resenhados e encontrar neles um alimento para a vida!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

O que tem de bom na Revisão Textual | Linguística & Literatura

Desde que comecei a trabalhar como revisora de textos (não tenho mais sossego), muitas pessoas me perguntam se esse tipo de trabalho não é muito maçante ou mecânico demais. A dúvida sempre gira em saber como eu reviso, como eu consigo saber todas as regras gramaticais para corrigir textos. Aos poucos, comecei a perceber que as pessoas têm uma ideia muito dura sobre o que é a revisão.

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Para começar é bom esclarecer que não sou um compêndio de regras ambulante, apesar de trabalhar com a gramática e com o dicionário todos os dias. Também é importante esclarecer que, como não sou a dona desse tipo de saber extraordinário, não posso ser vista como uma juíza que vai condenar todas as linhas do seu texto a ficarem vermelhas ou cortadas e que vou destruir sua produção com meu olho biônico.

Além de fazer (re)visão, também trabalho com CONSULTORIA LITERÁRIA. Nossa! Que bicho é esse? Existem, na verdade, muitas agências de consultoria literária que são compostas por críticos, escritores e editores que vão ajudar o escritor a colocar seu projeto literário adiante.

No entanto, eu que sou só formada em Letras também faço esse trabalho. A minha consultoria literária, por exemplo, se preocupa em instruir e em dar soluções para que o autor tenha bem claro em sua mente como adequar aquela ideia a uma forma, tendo consciência da estrutura e dos efeitos de sentido que deseja causar no leitor. Muitos apenas dizem: “corta isso”, “tá feio isso, hein”, “não gostei”, “hum, inadequado”, “olha essa gordurinha aqui”… “não gostei”. Um bom consultor não deve fazer isso!

Na minha opinião, um consultor nunca deve personalizar o processo por mais que esteja certo em seus apontamentos, ou seja, nada de usar expressões do tipo “não gostei”, “acho melhor assim”. Da mesma forma, ele não deve se dirigir ao autor que está contratando o serviço como sendo o culpado, como sendo um réu que causou todos aqueles problemas. Então, nada de usar expressões como: “você fez isso e aquilo, por isso que seu texto está assim”, “você precisa fazer tal coisa”.

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O que o consultor gosta ou acha melhor para um texto não pode ser digno de respaldo para modificá-lo. A primeira coisa que você vai pensar é: “E daí?” “O que o seu gosto tem a ver com isso?”. Nada! Nada mesmo! Porque de fato a justificativa não tem que estar na pessoa do consultor, mas no texto. O autor também não deve se desculpar em uma espécie de rendição, porque as falhas não estão em você (autor), mas no texto, na configuração dele. Portanto, você precisa é de ferramentas para conseguir o que você quer e não um julgamento, ainda que a sua necessidade seja a mais básica.

Ah então você tá querendo dizer que a revisão não proporciona isso? Que ela é realmente mecânica e menos instrutiva? Não! Porque uma boa revisão leva em consideração o texto como uma unidade, um todo que precisa ser analisado de acordo com os seus sentidos. Como o texto é o centro, todo o percurso da revisão e da consultoria tem que ficar claro para o escritor (cliente), ou seja, nunca delete e reescreva sem marcar o que você está interferindo. É como um trabalho de restauro, em que a intervenção tem que aparecer no documento para não descaracterizar a sua constituição. Ok?!

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Então, para que um texto tenha seu sentido compreendido ele precisa passar por todos os passos de uma revisão gramatical (ortografia, regência, pontuação e etc.), mas sem nunca perder de vista a análise do gênero textual nem as tipologias textuais utilizadas. Da mesma forma, não se pode esquecer de ver a coerência e nem deixar de analisar como o autor trabalha os aspectos literários em seu texto (personagem, linguagem, tempo, espaço, cenário, trama etc.).

Ufa! Tudo isso? É, e não importa se seu texto é acadêmico, literário, jornalístico… Tudo começa pelo gênero textual e o que concerne a ele. Então, tanto a (re)visão como a consultoria são um ato de amor e de ensino também. É assim, amigos, que casamos Literatura e Linguística para sempre!

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Entre bruxas e cortesãs | Um olhar sobre o filme “Em Luta pelo Amor”

Depois do filme, Em luta pelo amor, e das milhares de histórias que conheço sobre a condição da mulher no cinema, na literatura e na vida cotidiana, fica cada vez mais difícil se manter calada diante do esforço de todas elas por uma nesga de existência legítima e autêntica, por uma voz que ressoe no mundo sem que seja ouvida como vaidade, manipulação, feitiçaria, dominação e perigo.

Não há uma maneira pior de tirar a legitimidade dos conhecimentos de uma mulher do que os reduzir a sedução, bruxaria e histeria. Assim fez o século XVI, em Veneza, com a poetisa e cortesã, Veronica Franco, que foi levada ao tribunal da Inquisição pronta para ser queimada na fogueira por ter sido acusada, como tantas outras, de enfeitiçar os homens até seus lençóis impuros. Assim fez as diferentes épocas com várias de nós.

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Naquela época, o filme mostra que o papel da mulher de família nobre restringia-se a firmar aliança de poder por meio de um casamento promissor com um nobre riquíssimo. Com os deveres de ambos cumpridos pelos votos matrimoniais, os homens podiam gozar de maior liberdade extraconjugal, sendo importante para afirmar seu poder e virilidade o relacionamento com amantes e cortesãs. As esposas, no entanto, dedicavam-se à religião, ao bordado e à garantia de herdeiros com saúde. Sempre à sombra de seus maridos, essas mulheres não tinham acesso a livros, pouco ou quase nada conheciam de filosofia, artes, geografia e assuntos políticos do Estado.

Diferente, era a educação de uma cortesã, como ilustra o filme Em luta pelo amor, de 1998, sobre a vida de Veronica Franco. Além da arte do prazer, essas mulheres dominavam os conhecimentos correntes da época, sabiam cantar, dançar, tocar instrumentos musicais, eram versadas em várias artes, acessavam bibliotecas, cultivavam a atenção e o afeto nas rodas masculinas, tendo voz e até poder de convencimento para as questões mais delicadas. As amantes também tinham força, como é o caso de Ana Bolena e Henrique VIII, com a anulação de casamentos e rompimentos institucionais.

Trailer do filme “Em luta pelo amor” http://www.adorocinema.com/filmes/filme-1033/trailer-19543409/

No mundo dominado pelo falo, a força e atuação das mulheres assusta os mais poderosos. Pouco se reteve na historiografia sobre a produção artística e científica, por assim dizer, dessas mulheres que tinham na pena da escrita e no útero o fardo de se esconderem para existir. Sempre que ameaçamos o poder, mesmo que seja para servir ao nosso país e crenças, como fez Joana D’arc, por exemplo, acabamos por sermos julgadas feiticeiras e queimadas em fogueiras, antes de fogo, agora, de símbolos. Pergunto se de fato o perigo está em nossas habilidades carnais ou na fraqueza e no abalo que causamos às hierarquias e aos lugares sociais estabelecidos pelos homens, quando começamos a lutar para mostrar que a cultura humana deve nos contemplar, porque de fato agimos no mundo e fazemos parte dela.

Queima-nos o tempo atual ao esquecer que nossos corações e mentes são produtores de conhecimento em diversas fontes do saber, ao desprezar com ar paternalista o que criamos para além dos filhos. Queima-nos aqueles que somente conseguem se relacionar conosco se tivermos condições favoráveis diante das exigências materiais e psicológicas. O nosso novo dote inclui a estabilidade econômica, um corpo impecável, a façanha de ser dona de casa exemplar, a mãe que não tiveram, a funcionária eficiente…

Enquanto redobram o número de jaulas, tomamos novamente a pena para sabermos que homens e mulheres estão presos sob os mesmos ditames materiais, para tomarmos consciência de que entre o amor e o dinheiro os valores de ambos estão comprados pela opressão e obsessão da prosperidade, sustentados pela hierarquia, pelo individualismo e pela irresponsabilidade social. Se esse era o destino somente dos homens, agora passou para nós mulheres também, mas sem que tenhamos de todo o direito de nos expressarmos, de agir no mundo, de escolher nosso caminho, de sermos cortesãs, de não sermos queimadas por sermos mulheres. Desculpem, mas queremos maior liberdade do que os seus modelos e conquistas conseguiram nos mostrar.


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Criminalização do Aborto | O lugar dos homens na luta

A decisão do STF sobre a questão do aborto (http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/11/30/decisao-do-stf-legaliza-o-aborto-ate-o-terceiro-mes-da-gravidez-entenda.htm) criou um rebuliço nas redes sociais. Um dos comentários comuns que eu tenho visto de pessoas que dizem apoiar o feminismo e de algumas feministas é que “quem não tem útero não devia opinar”, no caso se referindo aos homens. Apesar de eu entender a premissa, esse tipo de discurso é muito perigoso, trazendo mais problemas do que soluções.

Em primeiro lugar, é inegável que a decisão sobre se uma mulher deve ou não abortar é de responsabilidade única e exclusiva dela. Nem Estado, nem companheiro/a, nem família têm DIREITO sobre o corpo da gestante para intervir. Todavia, isso não implica em EXCLUSÃO do processo, pois é DEVER de todos apoiar e participar de forma a dar suporte à decisão da mulher, pois essa decisão é sempre traumática.

Em segundo lugar, quando saímos da esfera do individual e/ou do familiar, a questão do aborto é uma questão de saúde pública. Apesar de não ser decisão do Estado determinar sobre se uma mulher deve abortar ou não, é seu DEVER promover políticas públicas de proteção e amparo às mulheres que quiserem/precisarem abortar. E isso não é só passivamente permitir o ato, o limite último da decisão do STF, mas efetivamente garantir a possibilidade de escolha responsável por parte da mulher, garantindo apoio psicológico, médico e legal para que o aborto não se torne uma decisão fruto da desigualdade social, das pressões econômicas, das preconcepções familiares e da fragilidade inerente ao momento da gravidez.

Por esse motivo que normalmente se percebe uma queda no número de abortos em países que legalizaram a prática: ao se tentar promover o fim do tabu sobre o aborto, as mulheres podem tomar a decisão com apoio das pessoas que a cercam e podem usufruir de uma rede de saúde social e pública de amparo que, ao fazê-la se sentir segura, diminui as ameaças, as ansiedades, os desgostos, as frustrações e os medos que podem acometer uma grávida em seu período de gestação.

Terceiro lugar, é DEVER de qualquer um dar suporte a pessoas em situação de fragilidade, na medida de suas possibilidades psíquicas, sociais e materiais. Mulheres grávidas estão em um momento de fragilidade, pois seus corpos passam por inúmeras mudanças físicas e psicológicas, que trazem não somente riscos ao corpo como também podem afetar negativamente a autoestima, a identidade e a estabilidade mental da mulher. Isso não é dizer que a mulher seja frágil por essência, de maneira nenhuma, mas as alterações no corpo, as pressões sociais e o próprio fato de a individualidade e a identidade serem afetadas pela presença de outro ser em seu corpo colocam esse momento como de fragilidade emocional, social e física da gestante.

Logo, quando uma mulher se sentir insegura quanto a sua gravidez, mostrando que está pensando no aborto, é necessário que sejamos capazes de dar suporte e cuidado, possibilitando que a mulher grávida perceba opções de futuro, sendo fundamental para aqueles que estão perto da gestante, inclusive para os homens, mostrar alternativas, se voluntariando sinceramente a ajudar e sugerindo apoio psicológico. Isso não significa de maneira nenhuma pressionar sutilmente a não abortar, mas mostrar que não é o único caminho.

Por exemplo, caso uma jovem de 18 anos tenha ficado grávida e passe a achar que sua vida vai acabar, que a criança vai impossibilitá-la de seguir uma carreira ou ter certos tipos de experiências, o aborto pode passar a ser uma possibilidade em seu horizonte de expectativas. É dever daqueles que a cercam, homens inclusos, mostrar nesse momento de INDECISÃO que ela não precisar criar x filhx sozinha, se dispondo a ajudar e tentando apresentar exemplos de outras mães que tiverem soluções inteligentes para situações semelhantes, soluções que ela pode não estar vendo por uma série de motivos. Contudo, ao mesmo tempo, é vital sempre deixar o aborto como uma opção viável, moralmente justa, completamente realizável e em equidade com as outras possíveis escolhas.

Em resumo, apesar da linha ser tênue entre a pressão e o suporte, é vital permitir, emocional, social e materialmente, que as mulheres grávidas em problemas tenham outras alternativas que não a gravidez indesejada/perigosa/inconveniente/traumática e o aborto. Isso é papel do Estado, da família, dos amigos e dos/das companheiros/as, permitir que a mulher tenha possibilidade de escolhas, de decidir plenamente entre vários caminhos, tornados possíveis e sem sobrecarga moral, emocional e material.

Por fim, é muito cruel e de um autoritarismo sutil o entendimento de que se eu não sou parte da minoria eu não devo participar DE MANEIRA NENHUMA no ativismo político, pois esse discurso muitas vezes vira desculpa para o racismo, o machismo e o classismo passivos e para a falta de comprometimento com a ação política contra as injustiças sociais. Não é porque eu sou branco, heterossexual e ocidental que eu não possa ler, me informar e dar suporte a movimentos sociais. Na verdade, por isso mesmo eu tenho o DEVER social de me informar, me educar, me transformar e ajudar os movimentos sociais sempre que possível e dentro das minhas possibilidades.

Além disso, esse discurso ignora um elemento fundamental: a grande inflexão da política que ocorreu no século XX foi o entendimento de que os processos de subjetivação (a formação de subjetividades) são processos políticos e sociais. As políticas de identidade surgidas ou recriadas no século XX tem aí a sua genealogia. Dessa forma, apesar das mulheres serem as principais prejudicadas e dos homens serem os que se beneficiam do machismo, os homens, corpos formados para o machismo, são também sujeitados (no sentido duplo de submetidos e formados enquanto subjetividades) a esse mesmo machismo. Dessa maneira, apesar de não estarem na mesma condição de opressão que as mulheres, os homens têm suas próprias pautas contra o machismo, devendo e se organizando em movimentos sociais. Por esse motivo, entre outros, que seria mais certo falar de machismos.

Isso não implica que os homens sejam feministas, no sentido de protagonistas do feminismo, mas que nós temos o dever de contribuir e dar suporte às mulheres em luta e que temos também nossas próprias contas para acertar contra o machismo. O processo de subjetificação que cria os homens-machos, nossa educação para o machismo, é cruel e tenta limitar os homens a serem opressores. Permitir novas subjetividades masculinas para além da violência, da dominação e da sexualidade do estupro é uma luta que nós homens temos que nos dedicar, em parceria com o feminismo. O movimento gay (falando aqui só dos homens homossexuais, não das lésbicas) é um exemplo dessa luta.

A luta pelos direitos reprodutivos não é, portanto, somente das mulheres, mas de todos. Aos homens se têm imposto uma paternidade da exclusão, da não participação e da reprodução do papel de “provedor”. Nós homens queremos chorar e amar com nossos filhos, queremos viver intensamente o momento de sermos pais, PARTILHANDO as responsabilidades da criação.

Um exemplo de pauta para nós homens é o aumento do tempo da licença paternidade, se possível se igualando à licença maternidade. Para os homens heterossexuais essa pauta se liga ao desejo de ajudar as suas companheiras após o parto e de serem proativos nas tarefas de criação e educação, partilhando igualmente as responsabilidades e acompanhando os primeiros momentos da criança.

Para os casais gays, o fato da licença paternidade ser bem menor que a licença maternidade prejudica e limita os cuidados que os pais devem ter ao adotar uma criança, não havendo igualdade em uma legislação que coloca esses casais, na melhor das opções, como de segunda categoria. Sermos pais que fujam dos modelos de masculinidade opressores, autoritários, violentos e que contestem o papel de provedores é uma luta necessária e deve ser protagonizada também e sobretudo por nós homens.

O Instituto PAPAI, de Pernambuco, é um exemplo de um coletivo composto por homens e mulheres voltado para a luta na formação de novas masculinidades:

 

Nossa missão é promover cidadania com justiça social, contribuindo para a garantia dos direitos humanos, em prol da eliminação de desigualdades e da afirmação e valorização da diversidade a partir da perspectiva feminista de gênero, atuando prioritariamente com homens e sobre masculinidades, contra todas as expressões do machismo.

(http://institutopapai.blogspot.com.br/p/sobre-o-grupo.html)

Enfim, as falas mencionadas no início desse texto que estão sendo criadas, divulgadas e mobilizadas nas redes sociais e em parcelas de alguns movimentos sociais, afirmando que “quem não tem útero não deve nem pensar em opinar” podem levar a interpretações e vivências que não contribuem em nada para a luta contra a desigualdade social, mas que a reforçam. É preciso a formação de coletivos, onde homens e mulheres trabalhem juntos contra suas opressões, se apoiando mutuamente e percebendo as causas em comum, sem nunca tirar o protagonismo de ninguém.

O feminismo é um movimento que veio para a ficar e os homens precisam aprender com as experiências das mulheres, permitindo que o feminismo os transformem. Podemos ser, portanto, protagonistas na luta contra o machismo também, mas entendendo quais são nossas lutas e pautas, ajudando na discussão e na promoção da luta contra as desigualdades de gênero. A questão do aborto é um dos centros atuais nesse debate. Dessa maneira, devemos, sim, discutir sobre o aborto.

Homens, a luta contra a criminalização do aborto também é nossa!


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Rafael de Farias Vieira, historiador e… atualizando as definições de identidade.