O que eu senti quando li A Amiga Genial de Elena Ferrante

Faz tempo que não apareço por aqui, mas o motivo de minha falta é bom. Fiquei grávida, trabalhei até o último segundo antes de dar à luz. Agora, eu e a bebê somos um time e por isso consegui ler e também escrever sobre essa obra. 😊

Antes de pedir o livro de presente para um amigo, fiquei realmente na dúvida se o frenesi em volta dessa Série Napolitana tinha um fundamento estético de qualidade. Via os booktubers que acompanho se tornarem fãs de uma hora para outra e fiquei seduzida pelo hype que toda essa empolgação criou.

O(a) autor(a) – parece que é autora – é desconhecido enquanto pessoa. Elena Ferrante nem é seu verdadeiro nome, mas esse pseudônimo tem percorrido o mundo e feito sucesso de vendas desde o lançamento de L’amica Geniale, em 2011, na Itália.

Não é sem razão então a paixão que surge nos leitores de Ferrante. Eu mesma, preciso confessar, fiquei arrasada quando terminei de ler o primeiro volume sem ter em mãos o segundo. Terminei a leitura ontem e somente o ímpeto de falar dele pode ajudar a curar esse sentimento de abandono.

Durante duas semanas, entre mamadas e dormidas quebradas, Lila e Lenu foram minhas companheiras. Fizeram-me sentir o calor de Nápoles, querer falar italiano novamente e até conhecer o Vesúvio.

Nápoles

Não só isso, ao ler a história dessas duas amigas fui logo seduzida por uma narradora veloz, franca e direta. Eu realmente gosto quando o autor cria um personagem narrador que te carrega para dentro da história e te torna parte dela. A amiga genial é assim. Lenu vai levando a gente para conhecer a sua gente e o seu bairro e, principalmente, sua amiga Lila.

A história começa na vida adulta quando o filho de Lila, Rino, liga para Lenu e diz que a mãe sumiu, levando tudo, sem deixar vestígio algum. Parece que para não se suicidar a personagem tenta de fato sumir da face da Terra, mas a amiga Elena Greco, Lenu, decide reverter essa situação e começa a narrar tudo, desde a infância, quando conheceu Lila Cerullo, até a maturidade. Na contramão do sumiço da amiga, vemos uma tentativa de registrar com o coração a existência dela e o surgimento de uma amizade marcada pela importância que Elena Greco dá à Lila.

Do texto é possível extrair algumas questões interessantes que envolve a geração pós-guerra. O trabalho e a função que as meninas, Lila e Lenu, têm que desempenhar diante da família e dos amigos é o terreno onde essas questões se desdobram. Trabalhar duro parece ser a solução concreta para viver e desenvolver o bairro, enquanto que o estudo parece algo irreal, inútil e inacessível, sem resultados imediatos para a sobrevivência. Os relacionamentos amorosos e os casamentos também são (de)formantes na história das meninas.

Assim, a amizade das duas vai sendo transformada em relações de poder com os rapazes, com os professores, com as famílias, e, também uma com a outra. Pelo o olhar de Elena Greco, a Lenu, vemos a espiral que é sua relação com Lila. Se completam, se invejam, se destroem, se amam, se odeiam? Difícil responder. Talvez, seja tudo isso junto. É desse suco que temos a impressão de que a relação de amizade entre as duas é real como as que travamos na vida.

Como conhecemos Lila através de Lenu, sentimos que Lila é superior, mais segura de si, mais inteligente, mais bonita, mais tudo. Enquanto que Elena parece sempre uma sombra ou um espelho tentando refletir um espectro da amiga. Sua identidade enquanto pessoa vai se formando a partir dessa amizade. Vemos aqui o retrato da tradicional comparação que fazemos quando conhecemos uma pessoa do nosso mesmo gênero. Aqui o mundo do feminino pulsa em sua cara mais conhecida: a competição.

Uma é princesa a outra é a bruxa, em outro momento uma é santa, a outra a devassa, e aqui seguimos enlouquecidas por ver que esses traços dissonantes são acordes constituintes de cada uma das personagens.

O mais interessante ainda é notar que por mais detalhes que a narrativa nos traga sobre o que acontece com cada uma das meninas, mais e mais nos parece que as duas nos são desconhecidas. As facetas mostradas são complexas, mas unilaterais. Conhecemos, talvez, um tanto melhor a narradora fantástica que é Lenu, pois ela é o prisma que nos parece mais rico do que a pintura engrandecedora, ainda que complexa, da amiga. Mergulhamos no íntimo da autoria de seus sentimentos ao repassar a amizade para o papel e no final nos perguntamos quem é de fato a Amiga Genial, Lina ou Lenu?

Depois repasso aqui o que vai me causar o restante da Tetralogia! No mais, descobri que essa Série Napolitana vai virar série de TV no próximo ano. De qualquer forma, fica aqui a indicação de leitura antes que vire imagem, para não perder nenhum fio dessa narrativa!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com e no ig @leituresca!

 

AMAZON X JOÃO DORIA: Entenda a disputa

Amazon crítica a “cidade cinza” de Doria e o resultado da disputa se reflete no consumidor e em solidariedade (ou oportunismo?).

No dia 27 de março, a Amazon divulgou seu primeiro comercial brasileiro com a #MovidosPorHistórias.

Para quem assistiu ao vídeo da propaganda, reconhece logo uma provocação à “cidade cinza” de João Doria (PSDB), atual prefeito de SP, que em janeiro deste ano começou uma ação de “limpeza” das vias urbanas paulistas, com a campanha “Cidade Linda”.

A ação incluiu também a pintura de paredes com grafites nos espaços urbanos e a prisão de pichadores. Como ato simbólico, Doria participou da ação, vestindo o mesmo uniforme dos encarregados da tarefa. Veja aqui.

Aproveitando o resultado monocromático da cidade, a Amazon lançou uma promoção de seus e-readers Kindle e de e-books no site, remetendo-se a tela do Kindle, já que a versões mais baratas do aparelho Kindle exibem as folhas e as capas dos livros em tons de cinza e preto e branco.

Amazon

Em resposta a provocação, no dia 28 de março, Doria pediu que a Amazon fizesse doação de livros e de computadores para a prefeitura de São Paulo e afirmou que a postura da empresa é oportunista em vídeo resposta publicado em seu perfil no Facebook.

Doria

Para não deixar passar em branco, a Amazon afirmou que vai doar aparelhos Kindle para instituições de educação e cultura de São Paulo. E sem deixar o consumidor de fora, a Amazon lançou uma lista de e-books gratuitos para que o leitor possa escolher um para baixar no aplicativo da loja Kindle.

Amazon

Além da Amazon, a Kabum! também ofereceu computadores e tablets para o prefeito, via twitter.

Diante dessa disputa, não consegui afirmar nessa situação quem é o oportunista da história, se as empresas, que tendem a lucrar quando sob os holofotes de uma polêmica que as favorecem; ou o prefeito, que aproveitou o ensejo para pedir apoio, mesmo que de forma irônica e conseguiu. No mais, me interessa bastante o fato de que a rede municipal de São Paulo receberá doações para bibliotecas e instituições envolvidas com a educação e a cultura não só pela Amazon, ainda que as paredes continuem cinza.

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Jornalismo: um novo caminho, novas perspectivas

O Jornalismo e um novo jeito de falar sobre

literatura no Leituresca.

O ano de 2016 me ensinou uma lição muito preciosa:

“Se você fizer algo por reconhecimento ou aprovação dos outros, não faça! A vida não é uma sucessão de resultados e respostas prontas. Ela é um caminho cheio de vivências, aproveite.”

Depois que passei a aceitar essa ideia, muitos impedimentos que não eram reais, e sim impostos, foram embora e a vida começou a fluir. Com as leituras está sendo a mesma coisa, pois não preciso mais me preocupar em atingir resultados astronômicos, cumprindo listas de livros e comprando mais e mais, enchendo a estante de possibilidades que, certamente, iriam me sufocar mais tarde.

Jornalismo

Com a formação em Letras descobri minha paixão de ser revisora e consultora literária, ficando ainda mais próxima da Literatura, que movimenta a minha vida. Aqui você pode dar uma olhada de como é trabalhar com revisão e consultoria. E por falar nisso, hoje, dia 28 de março, é dia do Revisor de Textos!

Foi por meio dessas duas funções que encontrei o meu lugar no mundo, que pago minhas continhas e que agora possibilitou investir mais um pouquinho na minha carreira com o Jornalismo.

Por isso, o “atraso” nas resenhas e diários de leitura. Estou vivendo aqui a leitura, estou vivendo aqui um livro. Depois conto quais serão as próximas resenhas…

Mas agora é hora de atualizar o status da bio, digamos assim. A ideia de se trabalhar com diversos tipos de mídias sempre acelerou meu coração, imagina agora com aulas de fotografia, rádio, tv e mídias digitais! É claro que vou aproveitar o máximo possível do Jornalismo para incrementar o Leituresca.com e a minha profissão freelancer (frila) de revisora de textos.

Acredito que desse casamento, Jornalismo e Literatura, muitas portas poderão se abrir. O objetivo maior ainda continua sendo o de se trabalhar as diversas formas de linguagem para fomentar a Literatura de maneira cada vez mais acessível. Não é mesmo à toa que muitos escritores brasileiros encontram no Jornalismo uma outra forma de agir no mundo por meio das letras.

Jornalismo Literatura

Quem sabe um dia as letras transbordem tanto dentro de mim que passem a compor um livro de minha autoria?

Vamos andando…

Só posso garantir que vocês que acompanham o Leituresca sentirão que alguma coisa vai mudar e espero que seja para melhor. Com o Jornalismo pretendo tornar mais acessível o conteúdo de qualidade e robustez que as Letras trouxeram para mim.

Não pensem que vou manipular o mundo inteiro e tudo o que for visto aqui terá segundas, terceiras ou quartas intensões. Não! Ficaria apenas muito contente de ser mais lida e de, principalmente, incentivá-los a ler mais, a não chegar perdido em uma livraria, feira ou biblioteca. A ideia é deixar vocês com água na boca para ler os livros resenhados e encontrar neles um alimento para a vida!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

As redes sociais atrapalham a sua leitura? | Vivências Literárias

Antes de responder essa pergunta, conte quantos dispositivos móveis você tem ao seu redor, e não esqueça de incluir o computador e a televisão que você assiste de vez em quando. Contou? É…pois é. Aqui em casa tenho (vamos lá): 1 smartphone; 1 notebook; 1 tablet (que substitui por um Kindle). Além da tevê.

Até aí tudo bem. O problema começa quando se conta quanto tempo é gasto em redes sociais ou meios virtuais (facebook, twitter, whats, instagram, snapchat, e-mail…) e em serviços de stream de jogos, de filmes e séries também.

Junte tudo isso com o tempo que você gasta no trabalho, atendendo telefonemas ou na frente do pc; com o tempo no supermercado, nas filas da vida. Ah, você faz atividade física? Acrescenta aí. Faz faculdade também? É mãe, é pai? Eita!

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Fica difícil depois de um dia cheio sentar em uma cadeira e ler um livro por uma hora sem interrupções, não é? Justamente porque a culpa não está nas redes sociais, no netflix ou na TV, nem no seu trabalho ou nos seus estudos, que estão te roubando desse prazer imenso que é ler. Seus filhos (pasmem!) também não são culpados por te afastarem para sempre dos livros.

De quem é a culpa?

Antes de sair apontando o dedo… é bom sabermos que alguns fatores estão contribuindo para despedirmos a literatura do nosso cotidiano. A atenção que dispensamos para atividades de concentração, que exigem uma postura serena, de compenetração e calma está cada vez menor. Falta paciência e geralmente estamos muito pilhados ou estressados para isso, já que associamos essa diminuição de ritmo ao sono.

Um outro fator interessante é que associamos a leitura de textos não informativos a algo inútil. Sempre pensamos: “Não tenho tempo para isso!” por mais que o propósito de se ler seja variado – divertimento, terapia, prazer, etc. A verdade é que as prioridades mudam quando as atividades estão relacionadas à saúde mental.

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Por trás dessa expressão de não se ter tempo estão valores muito difíceis de serem driblados. Nos acostumamos à rapidez, à necessidade, à utilidade, à produção, à eficiência, à praticidade… Fomos, enfim, afeiçoados a resolução de problemas e, muitas vezes, parece que viver se reduz a resolver situações complicadas e receber recompensas. Aparentemente, tudo que está fora desse padrão não merece dedicação, porque não tem “troco”; no máximo, serve para se glorificar, dizer que tem ou que leu, que conhece, que comprou…

Por conta desses valores que interiorizamos tanto, gerir o nosso tempo ficou mil vezes pior. Ainda assim, diante de tantas coisas para se fazer, conseguimos ficar entediados! Infelizmente, não tenho a resposta para o tédio.

O que quero sinalizar aqui é que para se ler mais e melhor não precisamos demonizar a internet e tudo o que ela nos oferece, mas precisamos perceber que os valores e as crenças associados à “pressa de se fazer ou se ter algo” são nefastos se forem exclusivos e se eles também estiverem permeando nossas leituras e nossas atividades estéticas tanto de criação como de apreciação.

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A dica que pode dar certo, mas que ainda não testei, é a de separar um tempo na semana para cada coisa, sem que elas atrapalhem umas às outras ou virem uma obrigação opressora. Por isso, não precisamos de maratonas de leituras, nem de listas quilométricas de livros, de filmes, de HQ, de séries e nem de ler três ou mais livros ao mesmo tempo. Nada disso!

A prioridade dessa prática é a valorização da experiência e da vivência de cada momento no seu devido tempo, ou seja, atribuir sentido e significado ao que você faz com o seu tempo de vida.

Então é isso, relaxa, respira e abra a primeira página…


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

O que tem de bom na Revisão Textual | Linguística & Literatura

Desde que comecei a trabalhar como revisora de textos (não tenho mais sossego), muitas pessoas me perguntam se esse tipo de trabalho não é muito maçante ou mecânico demais. A dúvida sempre gira em saber como eu reviso, como eu consigo saber todas as regras gramaticais para corrigir textos. Aos poucos, comecei a perceber que as pessoas têm uma ideia muito dura sobre o que é a revisão.

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Para começar é bom esclarecer que não sou um compêndio de regras ambulante, apesar de trabalhar com a gramática e com o dicionário todos os dias. Também é importante esclarecer que, como não sou a dona desse tipo de saber extraordinário, não posso ser vista como uma juíza que vai condenar todas as linhas do seu texto a ficarem vermelhas ou cortadas e que vou destruir sua produção com meu olho biônico.

Além de fazer (re)visão, também trabalho com CONSULTORIA LITERÁRIA. Nossa! Que bicho é esse? Existem, na verdade, muitas agências de consultoria literária que são compostas por críticos, escritores e editores que vão ajudar o escritor a colocar seu projeto literário adiante.

No entanto, eu que sou só formada em Letras também faço esse trabalho. A minha consultoria literária, por exemplo, se preocupa em instruir e em dar soluções para que o autor tenha bem claro em sua mente como adequar aquela ideia a uma forma, tendo consciência da estrutura e dos efeitos de sentido que deseja causar no leitor. Muitos apenas dizem: “corta isso”, “tá feio isso, hein”, “não gostei”, “hum, inadequado”, “olha essa gordurinha aqui”… “não gostei”. Um bom consultor não deve fazer isso!

Na minha opinião, um consultor nunca deve personalizar o processo por mais que esteja certo em seus apontamentos, ou seja, nada de usar expressões do tipo “não gostei”, “acho melhor assim”. Da mesma forma, ele não deve se dirigir ao autor que está contratando o serviço como sendo o culpado, como sendo um réu que causou todos aqueles problemas. Então, nada de usar expressões como: “você fez isso e aquilo, por isso que seu texto está assim”, “você precisa fazer tal coisa”.

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O que o consultor gosta ou acha melhor para um texto não pode ser digno de respaldo para modificá-lo. A primeira coisa que você vai pensar é: “E daí?” “O que o seu gosto tem a ver com isso?”. Nada! Nada mesmo! Porque de fato a justificativa não tem que estar na pessoa do consultor, mas no texto. O autor também não deve se desculpar em uma espécie de rendição, porque as falhas não estão em você (autor), mas no texto, na configuração dele. Portanto, você precisa é de ferramentas para conseguir o que você quer e não um julgamento, ainda que a sua necessidade seja a mais básica.

Ah então você tá querendo dizer que a revisão não proporciona isso? Que ela é realmente mecânica e menos instrutiva? Não! Porque uma boa revisão leva em consideração o texto como uma unidade, um todo que precisa ser analisado de acordo com os seus sentidos. Como o texto é o centro, todo o percurso da revisão e da consultoria tem que ficar claro para o escritor (cliente), ou seja, nunca delete e reescreva sem marcar o que você está interferindo. É como um trabalho de restauro, em que a intervenção tem que aparecer no documento para não descaracterizar a sua constituição. Ok?!

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Então, para que um texto tenha seu sentido compreendido ele precisa passar por todos os passos de uma revisão gramatical (ortografia, regência, pontuação e etc.), mas sem nunca perder de vista a análise do gênero textual nem as tipologias textuais utilizadas. Da mesma forma, não se pode esquecer de ver a coerência e nem deixar de analisar como o autor trabalha os aspectos literários em seu texto (personagem, linguagem, tempo, espaço, cenário, trama etc.).

Ufa! Tudo isso? É, e não importa se seu texto é acadêmico, literário, jornalístico… Tudo começa pelo gênero textual e o que concerne a ele. Então, tanto a (re)visão como a consultoria são um ato de amor e de ensino também. É assim, amigos, que casamos Literatura e Linguística para sempre!

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Lidos de 2016! | RetrôBooks

O ano está quase acabando e achei importante fazer um balanço das minhas leituras de 2016 para ajudar a planejar 2017! Nem todos os livros da lista tem resenha aqui no blog, mas se quiserem… é só pedir! Indicações de 2017? Manda aí! Comprando pelos links da Amazon, você ajuda o Blog a continuar existindo. Feliz Natal hohoho

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1. Drácula – Bram Stoker

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Um pavoroso embate entre bem e mal que seduz milhares de leitores há mais de um século. Fonte de inúmeras adaptações para telas e palco, inspiração para músicos, escritores e artistas de todas as áreas, Drácula é um ícone incontestável e obra-máxima de Bram Stoker. De um lado o conde Drácula – o mais famoso vampiro da literatura – e sua legião crescente de mortos-vivos. De outro, um grupo unido e decidido a caçá-lo: Jonathan e Mina Harker, o médico holandês Van Helsing e seus amigos. Romance epistolar ágil e bem-construído, esse livro enredará também você nessa dramática corrida contra o tempo. Essa edição traz o texto integral de Bram Stoker, centenas de notas, apresentação e cronologia de vida e obra do autor, tudo isso no padrão de qualidade dos Clássicos Zahar. A versão impressa apresenta capa dura e acabamento de luxo.

2. O Velho e o Mar – Ernest Hemingway

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Depois de anos na profissão, havia 84 dias que o velho pescador Santiago não apanhava um único peixe. Por isso já diziam se tratar de um salão, ou seja, um azarento da pior espécie. Mas ele possui coragem, acredita em si mesmo, e parte sozinho para alto-mar, munido da certeza de que, desta vez, será bem-sucedido no seu trabalho.

Esta é a história de um homem que convive com a solidão, com seus sonhos e pensamentos, sua luta pela sobrevivência e a inabalável confiança na vida. Com um enredo tenso que prende o leitor na ponta da linha, Hemingway escreveu uma das mais belas obras da literatura contemporânea.

Uma história dotada de profunda mensagem de fé no homem e em sua capacidade de superar as limitações a que a vida o submete.

3. Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

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Protagonista e narradora de Hibisco roxo , a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país.

Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.

4. As Três Marias – Rachel de Queiroz

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Em seu quarto romance, As três Marias, a escritora cearense Rachel de Queiroz foi ainda mais fundo em um tema que já estava presente em todas as suas obras anteriores: o papel da mulher na sociedade. A história tem início nos pátios e salas de aula de um colégio interno dirigido por freiras: Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são amigas inseparáveis que ganham de seus colegas e professores o apelido de “as três Marias”. À noite, deitadas na grama e olhando para o céu, as meninas se reconhecem na constelação com a qual dividem o nome. A estrela de cima é Maria da Glória, resplandecente e próxima. Maria José se identifica com a da outra ponta, pequenina e trêmula. A do meio, serena e de luz azulada, é Maria Augusta – ou simplesmente Guta, como sempre preferiu ser chamada

5. Quarenta Dias – Maria Valéria Rezende

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Quarenta dias no deserto, quarenta anos. É o que diz (ou escreve) Alice, a narradora de ‘Quarenta dias’, romance de Maria Valéria Rezende, ao anotar num caderno escolar pautado, com a imagem da boneca Barbie na capa, seu mergulho gradual em dias de desespero, perdida numa periferia empobrecida que ela não conhece, à procura de um rapaz que ela não sabe ao certo se existe. Alice é uma professora aposentada, que mantinha uma vida pacata em João Pessoa até ser obrigada pela filha a deixar tudo para trás e se mudar para Porto Alegre. Mas uma reviravolta familiar a deixa abandonada à própria sorte, numa cidade que lhe é estranha, e impossibilitada de voltar ao antigo lar. Ao saber que Cícero Araújo, filho de uma conhecida da Paraíba, desapareceu em algum lugar dali, ela se lança numa busca frenética, que a levará às raias da insanidade. ‘Eu não contava mais horas nem dias’, escreve Alice em ‘Quarenta dias’, um relato emocionante e profundo. ‘Guiavam-me o amanhecer e o entardecer, a chuva, o frio, o sol, a fome que se resolvia com qualquer coisa, não mais de dez reais por dia (…)’. Onde andaria o filho de Socorro? A que bando estranho se havia juntado, em que praça ficara esquecido?

 6. As Meninas – Lygia Fagundes Telles 

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Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A burguesa Lorena, filha de família quatrocentona, nutre veleidades artísticas e literárias. Namora um homem casado, mas permanece virgem. A drogada Ana Clara, linda como uma modelo, divide-se entre o noivo rico e o amante traficante. Lia, por fim, milita num grupo da esquerda armada e sofre pelo namorado preso.

As meninas colhe essas três criaturas em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas. Transitando com notável desenvoltura da primeira pessoa narrativa para a terceira, assumindo ora o ponto de vista de uma ora de outra das protagonistas, Lygia Fagundes Telles constrói um romance pulsante e polifônico, que capta como poucos o espírito daquela época conturbada e de vertiginosas transformações, sobretudo comportamentais.

Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, As meninas acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora.

7. Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll

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Passados quase 150 anos da publicação original, a clássica história de uma menina chamada Alice, que entra em uma toca atrás de um coelho e cai em um mundo de fantasia, continua popular.

Essa charmosa edição de bolso com ilustrações originais de John Tenniel, reúne Aventuras de Alice no País das Maravilhas e sua continuação, Através do espelho e o que Alice encontrou por lá.

8. Dom Casmurro – Machado de Assis

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Obra clássica do Realismo brasileiro e uma das mais famosas de Machado “Ainda hoje. mais de um século depois do surgimento do livro. leitores e críticos se debruçam sobre suas páginas na tentativa de encontrar pistas que lancem luz sobre o insolúvel ‘enigma de Capitu’.” Carlos Newton Júnior “É possivelmente o texto mais bem-acabado de nossa língua.” Carlos Sepúlveda Dom Casmurro é o romance mais estudado. comentado e discutido de Machado de Assis – o que significa dizer um dos mais estudados da nossa literatura. Publicado originalmente em 1899. o livro conta a história de Bentinho e Capitu. desde o namoro infantil até o casamento atormentado pelo ciúme e pela dúvida que virou polêmica literária: Capitu traiu o marido com o melhor amigo dele. Escobar? Os fatos são narrados por Bentinho. que relembra. já velho. episódios de sua vida.

9. Turismo para Cegos – Tércia Montenegro

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A vida de Laila está prestes a se esfacelar. Jovem aluna de artes plásticas, ela tem os planos interrompidos por uma doença degenerativa e incurável que vai lhe custar a visão. Conforme a cegueira avança, tarefas corriqueiras tornam-se desafios e tudo o que lhe era familiar precisa ser explorado e redescoberto. Assim, também há algo de novo no envolvimento com Pierre, um funcionário público aparentemente inexpressivo que irá cuidar de Laila com dedicação.

10. Olhai os Lírios do Campo – Erico Verissimo

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Primeiro best-seller de Erico Verissimo, Olhai os lírios do campo representou uma guinada na carreira literária do escritor. Várias edições se esgotaram em poucos meses. Segundo Erico, o sucesso foi tão grande que “teve a força de arrastar consigo os romances” que publicara antes em modestas tiragens.

Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, Olhai os lírios do campo é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida.

11. Menino do Mato – Manoel de Barros

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Um dos últimos livros escritos por Manoel de Barros, Menino do mato sintetiza com perfeição suas aspirações e seu estilo. Esse menino, que é a consciência do poeta, deseja apreender o mundo sem explicações ou propósitos. Na primeira das duas partes que compõem esta obra, Manoel reforça sua instintiva ligação com a natureza e a infância. Em sua procura por “palavras abençoadas pela inocência”, o poeta busca o universo em seu estado primordial. A segunda parte, “Caderno de aprendiz”, evidencia a absoluta liberdade de sua linguagem. Aqui, as palavras deixam de nomear para nos fazer simplesmente sentir a pureza dos primeiros tempos de nossas vidas.

12. Feliz Ano Velho – Marcelo Rubens Paiva 

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Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas”.

13. Razão e Sensibilidade – Jane Austen

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Originalmente publicado em 1811 sob o singelo pseudônimo “A Lady”, Razão e sensibilidade começou a ser escrito na década de 1790, quando Jane Austen (1775-1817) mal havia completado vinte anos. O livro é o primeiro da série de quatro romances que Austen publicou como edição do autor em seus últimos anos de vida. Todos se tornaram clássicos da literatura inglesa do século XIX.

Embora sua trama se desenvolva durante uma época de guerra e revolução no continente europeu, o romance concentra sua narrativa nas idílicas tramas de amor e desilusão em que duas belas irmãs inglesas se envolvem – Elinor e Marianne Dashwood – quando chega a idade do casamento. À procura do amor verdadeiro, as filhas órfãs de uma família pertencente à pequena nobreza enfrentam o mundo repleto de interesses e intrigas da alta aristocracia. Marianne e Elinor representam polos opostos do universo ético de Austen: Marianne é romântica, musical e dada a rompantes de espontaneidade, ao passo que Elinor é a encarnação da prudência e do decoro.

14. A Louca da Casa – Rosa Montero

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Em A louca da casa, Rosa Montero propõe aos leitores um jogo narrativo cheio de surpresas. Nele se misturam literatura e vida, num coquetel estimulante de biografias e autobiografia romanceada. E assim descobrimos que o grande Goethe adulava os poderosos até chegar ao ridículo, que Tolstói era um energúmeno, que Rosa, quando criança, via-se como uma anã e que, aos 23 anos, manteve um extravagante e hilário romance com um ator famoso.
Mas não devemos confiar em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as lembranças nem sempre são o que parecem. Este é, afinal, um livro sobre a fantasia e os sonhos, a loucura e a paixão, os medos e as dúvidas dos escritores, mas também dos leitores. A louca da casa é, antes de mais nada, a tórrida história de amor e de salvação entre Rosa Montero e seu imaginário.


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Entre bruxas e cortesãs | Um olhar sobre o filme “Em Luta pelo Amor”

Depois do filme, Em luta pelo amor, e das milhares de histórias que conheço sobre a condição da mulher no cinema, na literatura e na vida cotidiana, fica cada vez mais difícil se manter calada diante do esforço de todas elas por uma nesga de existência legítima e autêntica, por uma voz que ressoe no mundo sem que seja ouvida como vaidade, manipulação, feitiçaria, dominação e perigo.

Não há uma maneira pior de tirar a legitimidade dos conhecimentos de uma mulher do que os reduzir a sedução, bruxaria e histeria. Assim fez o século XVI, em Veneza, com a poetisa e cortesã, Veronica Franco, que foi levada ao tribunal da Inquisição pronta para ser queimada na fogueira por ter sido acusada, como tantas outras, de enfeitiçar os homens até seus lençóis impuros. Assim fez as diferentes épocas com várias de nós.

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Naquela época, o filme mostra que o papel da mulher de família nobre restringia-se a firmar aliança de poder por meio de um casamento promissor com um nobre riquíssimo. Com os deveres de ambos cumpridos pelos votos matrimoniais, os homens podiam gozar de maior liberdade extraconjugal, sendo importante para afirmar seu poder e virilidade o relacionamento com amantes e cortesãs. As esposas, no entanto, dedicavam-se à religião, ao bordado e à garantia de herdeiros com saúde. Sempre à sombra de seus maridos, essas mulheres não tinham acesso a livros, pouco ou quase nada conheciam de filosofia, artes, geografia e assuntos políticos do Estado.

Diferente, era a educação de uma cortesã, como ilustra o filme Em luta pelo amor, de 1998, sobre a vida de Veronica Franco. Além da arte do prazer, essas mulheres dominavam os conhecimentos correntes da época, sabiam cantar, dançar, tocar instrumentos musicais, eram versadas em várias artes, acessavam bibliotecas, cultivavam a atenção e o afeto nas rodas masculinas, tendo voz e até poder de convencimento para as questões mais delicadas. As amantes também tinham força, como é o caso de Ana Bolena e Henrique VIII, com a anulação de casamentos e rompimentos institucionais.

Trailer do filme “Em luta pelo amor” http://www.adorocinema.com/filmes/filme-1033/trailer-19543409/

No mundo dominado pelo falo, a força e atuação das mulheres assusta os mais poderosos. Pouco se reteve na historiografia sobre a produção artística e científica, por assim dizer, dessas mulheres que tinham na pena da escrita e no útero o fardo de se esconderem para existir. Sempre que ameaçamos o poder, mesmo que seja para servir ao nosso país e crenças, como fez Joana D’arc, por exemplo, acabamos por sermos julgadas feiticeiras e queimadas em fogueiras, antes de fogo, agora, de símbolos. Pergunto se de fato o perigo está em nossas habilidades carnais ou na fraqueza e no abalo que causamos às hierarquias e aos lugares sociais estabelecidos pelos homens, quando começamos a lutar para mostrar que a cultura humana deve nos contemplar, porque de fato agimos no mundo e fazemos parte dela.

Queima-nos o tempo atual ao esquecer que nossos corações e mentes são produtores de conhecimento em diversas fontes do saber, ao desprezar com ar paternalista o que criamos para além dos filhos. Queima-nos aqueles que somente conseguem se relacionar conosco se tivermos condições favoráveis diante das exigências materiais e psicológicas. O nosso novo dote inclui a estabilidade econômica, um corpo impecável, a façanha de ser dona de casa exemplar, a mãe que não tiveram, a funcionária eficiente…

Enquanto redobram o número de jaulas, tomamos novamente a pena para sabermos que homens e mulheres estão presos sob os mesmos ditames materiais, para tomarmos consciência de que entre o amor e o dinheiro os valores de ambos estão comprados pela opressão e obsessão da prosperidade, sustentados pela hierarquia, pelo individualismo e pela irresponsabilidade social. Se esse era o destino somente dos homens, agora passou para nós mulheres também, mas sem que tenhamos de todo o direito de nos expressarmos, de agir no mundo, de escolher nosso caminho, de sermos cortesãs, de não sermos queimadas por sermos mulheres. Desculpem, mas queremos maior liberdade do que os seus modelos e conquistas conseguiram nos mostrar.


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Vamos ser contemporâneas? | Clube Leitoras de Jane Austen

Finalmente aconteceu o nosso encontro do Clube Leitoras de Jane Austen!

Não sei se os leitores daqui já sabem, mas tive a brilhante ideia (modéstia parte) de organizar um clube de leitura só de meninas para ler a obra completa de Jane Austen. Além das reuniões entre as leitoras, combinamos de fazer um diário de leitura coletivo.

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A cada livro uma leitora ficará temporariamente em posse do diário para escrever suas impressões de leitura e ler o que as outras leitoras escreveram.

Esse é um movimento de amor que tenta resgatar a prática antiga de escrever à mão e, ainda, a de cultivar um diário (nada secreto).

Foi incrível ler Razão e Sensibilidade pela primeira vez. Um livro carregado de percepções ferinas sobre como as relações sociais podem ser mesquinhas. Se fosse possível renomear essa obra, um título cabível seria “Dinheiro e Amor”. Sim, o Amor em segundo lugar, porque aqui a felicidade está mais associada ao dinheiro do que à realização amorosa sincera.

Casamento nesse tempo era a coisa mais séria e vital para as moças inglesas, que, de acordo com a lei da época, não herdavam nada da família e, caso também não possuíssem dotes, dificilmente conseguiriam se sustentar e muito menos conseguiriam um casamento promissor. Essa era uma condição que a própria Jane Austen viveu, mantinha-se com a irmã, com uma pequena quantia e, enquanto escritora, arrecadava uma quantia irrisória para um sustento prolongado com base no ofício. Ô coisa difícil é ser ESCRITORA!

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A classe de média do interior da Inglaterra em meados de 1800 tinha como principal passatempo a preocupação com os casamentos e destinos das jovens moças. Aqui, fica claro para o leitor que a aparição de uma família ou de um jovem solteiro é um verdadeiro evento para a localidade. Além da preocupação mor com o alcovitamento, fica claro que a distância entre as propriedades de terra reforça a novidade que é a aparição de alguém diferente do seio familiar. Portanto, travar relações com os recém chegados era consequência natural, acarretando em longas visitas, excursões, bailes e jantares para proporcionar “encontrinhos”.

 

Atualmente, há uma dificuldade imensa de ficar sozinho e afastado das pessoas. Cidades grandes apinhadas de gente e monitoramentos via wi-fi devem deixar rastros suficientes para que você não se sinta completamente isolado. Acredite, o Google sabe onde você está nesse exato momento! Mas aquela época era tempo de cartas, demorava. As notícias vinham recentes ainda que demorassem a chegar, parecia até que os acontecimentos respeitavam o tempo de alastramento das novidades. Londres era badalada, mas Jane Austen pouco fala da capital inglesa e, quando fala, dificilmente faz elogios.

No nosso encontro foi possível ainda rever o filme Razão e Sensibilidade, vale a pena demais! Enriquecemos nossa experiência de leitura e acredito que tivemos um tanto de despertar de consciência quando olhamos a condição da mulher e o lugar social que ela ocupava em uma época diferente da nossa, fazendo as devidas comparações com a atualidade.

Pode parecer esquisito, mas o movimento de olhar a historicidade dessas narrativas, atentando para o papel da mulher é na verdade um movimento contemporâneo.  Ao reconhecer as circunstâncias históricas de uma narrativa, não estamos elaborando uma justificativa para validar o que a tradição sempre reforçou, mas sim estamos revolvendo uma terra cansada, que se bem nutrida de alteridade pode revelar frutos importantes para o momento presente.

Nunca concordei em fazer o contrário, pois acredito ser uma semeadura torta ir com os frutos e o cultivo do presente para o passado, tentando forçar ou exigir como deveria ter sido a coisa toda. Isso é uma cegueira de julgamento. Acredito que o esclarecimento vem da consciência do seu estar no mundo e, a partir disso, ser possível viajar para tempos remotos sem nunca perder a luminescência do presente, tendo a chance de conhecer e contestar a consciência de outros tempos.

Filosofei? É daí para pior… 😉

Próxima leitura: Orgulho e Preconceito.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Sobre Rodas | Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva

Ler literatura brasileira se tornou tão viciante que mal me lembro dos grandes clássicos da literatura universal que tenho na estante. Sem querer fazer uma hierarquia entre as literaturas, percebo que, cada vez mais, para ser uma escritora “viajada” tenho que mergulhar na dicção da literatura brasileira contemporânea.

A tônica e cadência da leitura se encaixam perfeitamente em algo que já carrego dentro de mim. E o que seria? Ainda não sei…mas compreendo que não é apenas uma identificação de nacionalidade. É mais do que isso: é uma forma particular e ao mesmo tempo conjugada de se ver a vida e o cotidiano. Particular, porque é singular de cada escritor e conjugada, porque de alguma forma há muita empatia entre a nossas conversas (leitura).

Foi assim com o romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho. Fisgada já na primeira linha, passava horas e horas lendo as histórias desse garoto namorador que por conta do “destino” ficou paraplégico aos 20 anos depois de pular de cabeça em um lago raso e fraturar a medula. Contrariando a expectativa do leitor de compadecer-se do “coitado”, Marcelo faz com que a gente consiga sorrir diante das suas percepções sobre essa situação crítica.

 

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A gravidade do problema passa para a história, mas não como algo sério ou sisudo demais, chocando o leitor de sobrancelhas armadas, ao ponto de evocar o sentimento de pena. Marcelo “transa” a situação mais complicada de sua vida com o humor de um garoto que viveu e continuava vivendo relacionamentos indefinidos com as mulheres, muitas amizades e o amor à vida.

Visto como um livro de memórias, ele não se concentra apenas no período de recuperação de Marcelo, mas mergulha ainda na infância marcada pelo sumiço do pai pela Ditadura Militar, o deputado Rubens Paiva, que somente em 2014 com a Comissão da Verdade teve seu caso esclarecido. Além disso, o livro conta sobre a juventude do Autor enquanto universitário no curso de engenharia agrícola, participando ativamente das lutas políticas estudantis na Universidade de Campinas, e, ainda, suas vivências como músico de paixão.

Em meio a vários obstáculos novos, o sexo é abordado constantemente, parece até que Marcelo sabe qual a primeira coisa que o leitor vai pensar: Será que um tetraplégico consegue fazer sexo? Sente prazer? Tem ereção? (Vai bem me dizer que você sordidamente nunca se perguntou sobre isso?) Essas são também as principais questões do Autor que vê sua vida mudar radicalmente sem ter a certeza se vai conseguir andar novamente e fazer tudo o que os outros fazem.

Com um humor leve e uma linguagem despojada cheia de gírias da década de 1980, o leitor é conduzido a compreender que Marcelo não está ali contando sua jornada de herói, não se considera nem mesmo como um exemplo de superação. Sem dó algum, ele mesmo vai examinando a medula espinhal de sua personalidade imatura, machista, inconsequente e cheia de fraquezas.

A beleza do livro está certamente no sentimento de gratidão que acompanha cada conquista do corpo, na manutenção das relações de amizade que vivificam sua rotina minimalista e na presença da família, relembrando-nos o que é realmente importante valorizar na vida e que cada respiração é motivo suficiente para celebrá-la. Aqui com certeza a empatia aconteceu.


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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

A peregrinação interior | Quarenta Dias de Maria Valéria Rezende

É preciso deixar claro que depois de ler Quarenta Dias não é mais possível olhar para um caderno da Barbie nas Americanas e agir normalmente.

 

O livro, vencedor do 57º Prêmio Jabuti, conta a história de Alice, 60 anos, professora de línguas, aposentada e viúva, que foi levada de João Pessoa para Porto Alegre pela filha, tendo como missão ser avó profissional para que a mãe da criança continuasse sua carreira acadêmica.

Maria Valéria Rezende é freira desde os 24 anos de idade, não é, portanto, sem propósito o título do livro. A autora tem conhecimento de causa do que quarenta dias significa no universo bíblico. Esse foi o período em que Jesus passou no deserto, o qual simbolicamente os cristãos católicos retomam no período pós-Carnaval e pré-Páscoa.

Alice, narradora-personagem, também sai em peregrinação durante quarenta dias pelas ruas de Porto Alegre, passando em becos, alojamentos de construtoras, rodoviária e até saguão de pronto socorro em busca de Cícero Araújo, filho perdido da manicure de uma amiga lá de João Pessoa.

Bastou isso como pretexto para Alice sair daquela vida emprestada, daquele apartamento arranjado e sem história, daquela função imposta de ser avó. Na verdade, perdida de si mesma, sem o endereço da sua nova casa em uma cidade desconhecida, Alice preferiu passar quarenta dias em mendicância a ter que voltar para a nova situação que a vida lhe impunha.

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No entanto, ao contrário da figura bíblica, o terreno em que ela peregrinou era fértil, dele brota várias percepções críticas do cotidiano, como as de que lá no Sul, os de cá do Nordeste são considerados todos iguais, de que também tem gaúcho negro e de que as dicotomias entre as Regiões embalam mais proximidades e interseções do que se imagina.

“[…] desde aquela manhã, no meio daquela agitação que eu mesma causara com a minha pergunta, vinha ganhando uma calma por dentro que havia muito não sentia, as falas, emoções e estranhezas do mundo maior me chamando pra fora e a minha própria amargura encolhendo-se num canto discreto. Estranhezas, eu disse? Engraçado é que eu tinha a impressão de, afinal, quase nada ver de tão estranho assim, neste Sul tão longe de casa, o povo misturado de todas as cores, os petiscos de pobre, aquele tanto de negros gaúchos que eu nunca soube que existiam, violência e solidariedade, pobreza e necessidade, iguais às da minha terra, a pedir milagres. ” (Pág., 120)

 O olhar para o mundo não é de denúncia social – do tipo que direciona o seu ponto de vista frio sobre a condição de existência do outro, estando munido do direito de falar o que é melhor para a vida alheia –  ao contrário, Maria Valéria Rezende, por meio de Alice, tece uma narrativa vívida do que é não se sentir abrigado em si mesmo, não poder fazer escolhas e ter que exercer uma função que lhe é imposta, tendo apenas como alternativa legítima, digna e autêntica, diga-se de passagem, viver no entre-lugar, na transitoriedade das ruas, durante quarenta dias em busca de si mesma. Àquela dor de ter que ceder, de aceitar o que é obrigado sem antes digerir, foi preferível fugir e preencher o vazio com a dor crua do mundo.

“Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos. […] A essa altura, meu caso, da minha própria filha, desaparecida simplesmente porque eu me recusava a ter mais notícias dela, começava a me parecer banal e mais uma vez me deixava levar por outra pessoa, agora, porém, sem nenhuma revolta, nem pensei em recusar, fui, pra onde me puxaram, decerto satisfeita por não ter de me emocionar com mais nada senão Cícero Araújo […]. ” (Pág., 118)

E o caderno da Barbie? Ora, pois num é dele que temos notícias de tudo! A boneca loira de olhos azuis da capa do caderno serviu ali para Alice como um ato de ressureição, a conceder o auto perdão depois da penitência. Era preciso colocar para fora, expurgar a experiência, concretizar a dor na escrita, para que a olhando de fora, pudesse facilitar o entendimento do que está dentro. O caderno da Barbie é miraculoso.

“E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo pra fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda pra lá e pra cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e canta e arenga e escarra e fala e fode e fala e vende e fala e sangra e se vende e sonha e morre e ressuscita sem parar.” (Pág., 14)

Como não se surpreender com a leveza da narrativa da escritora, com a plasticidade da linguagem que sai natural, mas que revela no fundo que só sabe brincar com a linguagem e transgredir, criar novos sentidos e formas, aquele que domina e conhece a norma e suas fissuras. De contraponto fica o questionamento de que não é preciso muita coisa para escrever o que está nos afligindo; basta uma mente, sã ou não, um caderno, da Barbie, de preferência, e uma caneta. O resto, vem depois.

 

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