A Mulher Grace

A rede de discursos por trás do enredo de Vulgo Grace, de Margaret Atwood, mostra como podemos apagar a existência de uma mulher.


Ao ler Vulgo Grace, antes de assistir a série no Netflix (Alias Grace), me deparei com o cruzamento de vários textos dentro da história. São trechos de jornais, confissões, relatos e relatórios que ajudam a compor a narrativa que Atwood nos apresenta por meio do personagem Dr. Jordan e da própria Grace Marks – acusada, aos 16 anos, de cometer, juntamente com James McDermott, os assassinatos de Sr. Kinnear, seu patrão, e de Nancy Montgomery, a governanta da casa onde era doméstica.

O caso de fato existiu, e a autora fez uma extensa e profunda pesquisa em fontes da época para escrever essa ficção. No entanto, a composição da obra não tem a pretensão de resolver o mistério. Seria Grace culpada ou inocente? Seria ela a incitadora dos acontecimentos ou uma vítima das circunstâncias?

Apesar do leitor ficar incomodado por não obter uma resposta concreta, pode aproveitar bastante sua criatividade interpretativa, pois Vulgo Grace pode ser considerada uma obra aberta, ou seja, seus limites estão abertos à pluri-interpretabilidade do leitor de acordo com suas próprias vivências pessoais.

Por isso, alguns podem desconfiar do que Grace fala sobre sua vida e sobre o episódio dos assassinatos. De todo modo, por não chegar a uma resolução precisa – pois isso tornaria Atwood também uma juíza – a autora não pode controlar os passos das personagens, seus pensamentos e intenções, não dá nem mesmo para controlar os passos que os leitores farão. Não há, na verdade, como afirmar categoricamente a inocência ou a culpa de Grace no sentido jurídico pelo que é posto no livro.

Acima dessa questão, acredito ter algo maior. Grace Marks teve sua personalidade silenciada e ao mesmo tempo composta pelos discursos e correntes de pensamento da época. Por isso, muita gente pensa que ela tem múltiplas personalidades dentro de si.

Existem duas de mim a louca e a santa
Uma de nós vai dormir a outra levanta
Uma se olha no espelho, se cuida, se arruma, se apronta
Sem saber que ela é o avesso de outra mulher
Uma é água cristalina, outra é noite de verão
Uma é só uma menina que não sabe dizer não
Uma é anjo bom, a outra é cortesã
Uma é fim de noite outra é luz da manhã
Uma vai pro céu outra não sei não
Uma ajoelha no altar, outra pede perdão

Duas de Mim – Sandra de Sá

Sentenciada à prisão perpétua, Grace passou pelas principais instituições de controle e educação dos corpos (dispositivos, como diria Foucault) – Tribunal, Sanatório, Penitenciária. Foi, portanto, considerada louca, histérica, manipulável e ingênua do mesmo modo que foi considerada a manipuladora, sedutora e arquiteta de todo mal.

O interessante nessa obra é que até as correntes espiritualistas que surgiam na época, a partir de manifestações mediúnicas das irmãs Fox e das mesas dançantes, serviram para encarcerar Grace em uma rede de asujeitamento. Apesar de não partir de uma instituição controladora do Estado, o espiritualismo que envolve a história serviu também como instrumento de apagamento das ações e escolhas da personagem em um momento crucial do enredo. Uma sacada genial! Pois, Grace nunca é agente de nada, mesmo sendo ela própria a nos narrar sua história.

Enredada por esses discursos, Grace foi, sobretudo, julgada pela régua da moral vigente e pelo ideal de mulher da época que contaminava as instituições de poder. O que também acredito valeu para não levar adiante o julgamento da governanta, já que ela foi em vida uma persona non grata para a sociedade, devido manter relações sexuais com o próprio patrão.

Diante dessa história, vemos que o próprio tribunal, se tradicional ou progressista, juntamente com a opinião pública, levou em consideração se Grace era obediente, recatada, subserviente, prendada (boa, recatada e do lar, basicamente) ou não, para aceitar sua sentença ou reverter seu destino por meio de petições embasadas em discursos morais e também científicos sobre seu estado mental, moral e até espiritual.

Cada vez que penso na história fica mais latente o fato de Grace reunir em sua figura e nos seus 30 anos de prisão os discursos opressores que acompanharam e continuam acompanhando as mulheres, tendo ainda para acrescentar as particularidades de raça, classe e credo que só aglutinam violências.

Para mim ela não é inocente. Ainda que eu não queira me reunir aos discursos de condenação ou salvamento, não consigo vê-la como menos que cúmplice. De qualquer forma, não dá para ignorar que ela foi violentada discursivamente por ser simplesmente mulher, o que consequentemente levou aos outros tipos de violência. Entre ser a virgem Maria ou a sedutora Eva, compactuar com esse tipo de discurso ou mesmo querer provar a “verdade” do mistério, baseando-se se ela era uma pessoa boa ou má, é também contribuir para a tradição que perpetua esse tipo de abordagem que julga as mulheres não por suas ações no mundo, mas sim por sua moral do nascimento até a morte.


Escrito por: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com e no ig @leituresca!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s