O que eu senti quando li A Amiga Genial de Elena Ferrante

Faz tempo que não apareço por aqui, mas o motivo de minha falta é bom. Fiquei grávida, trabalhei até o último segundo antes de dar à luz. Agora, eu e a bebê somos um time e por isso consegui ler e também escrever sobre essa obra. 😊

Antes de pedir o livro de presente para um amigo, fiquei realmente na dúvida se o frenesi em volta dessa Série Napolitana tinha um fundamento estético de qualidade. Via os booktubers que acompanho se tornarem fãs de uma hora para outra e fiquei seduzida pelo hype que toda essa empolgação criou.

O(a) autor(a) – parece que é autora – é desconhecido enquanto pessoa. Elena Ferrante nem é seu verdadeiro nome, mas esse pseudônimo tem percorrido o mundo e feito sucesso de vendas desde o lançamento de L’amica Geniale, em 2011, na Itália.

Não é sem razão então a paixão que surge nos leitores de Ferrante. Eu mesma, preciso confessar, fiquei arrasada quando terminei de ler o primeiro volume sem ter em mãos o segundo. Terminei a leitura ontem e somente o ímpeto de falar dele pode ajudar a curar esse sentimento de abandono.

Durante duas semanas, entre mamadas e dormidas quebradas, Lila e Lenu foram minhas companheiras. Fizeram-me sentir o calor de Nápoles, querer falar italiano novamente e até conhecer o Vesúvio.

Nápoles

Não só isso, ao ler a história dessas duas amigas fui logo seduzida por uma narradora veloz, franca e direta. Eu realmente gosto quando o autor cria um personagem narrador que te carrega para dentro da história e te torna parte dela. A amiga genial é assim. Lenu vai levando a gente para conhecer a sua gente e o seu bairro e, principalmente, sua amiga Lila.

A história começa na vida adulta quando o filho de Lila, Rino, liga para Lenu e diz que a mãe sumiu, levando tudo, sem deixar vestígio algum. Parece que para não se suicidar a personagem tenta de fato sumir da face da Terra, mas a amiga Elena Greco, Lenu, decide reverter essa situação e começa a narrar tudo, desde a infância, quando conheceu Lila Cerullo, até a maturidade. Na contramão do sumiço da amiga, vemos uma tentativa de registrar com o coração a existência dela e o surgimento de uma amizade marcada pela importância que Elena Greco dá à Lila.

Do texto é possível extrair algumas questões interessantes que envolve a geração pós-guerra. O trabalho e a função que as meninas, Lila e Lenu, têm que desempenhar diante da família e dos amigos é o terreno onde essas questões se desdobram. Trabalhar duro parece ser a solução concreta para viver e desenvolver o bairro, enquanto que o estudo parece algo irreal, inútil e inacessível, sem resultados imediatos para a sobrevivência. Os relacionamentos amorosos e os casamentos também são (de)formantes na história das meninas.

Assim, a amizade das duas vai sendo transformada em relações de poder com os rapazes, com os professores, com as famílias, e, também uma com a outra. Pelo o olhar de Elena Greco, a Lenu, vemos a espiral que é sua relação com Lila. Se completam, se invejam, se destroem, se amam, se odeiam? Difícil responder. Talvez, seja tudo isso junto. É desse suco que temos a impressão de que a relação de amizade entre as duas é real como as que travamos na vida.

Como conhecemos Lila através de Lenu, sentimos que Lila é superior, mais segura de si, mais inteligente, mais bonita, mais tudo. Enquanto que Elena parece sempre uma sombra ou um espelho tentando refletir um espectro da amiga. Sua identidade enquanto pessoa vai se formando a partir dessa amizade. Vemos aqui o retrato da tradicional comparação que fazemos quando conhecemos uma pessoa do nosso mesmo gênero. Aqui o mundo do feminino pulsa em sua cara mais conhecida: a competição.

Uma é princesa a outra é a bruxa, em outro momento uma é santa, a outra a devassa, e aqui seguimos enlouquecidas por ver que esses traços dissonantes são acordes constituintes de cada uma das personagens.

O mais interessante ainda é notar que por mais detalhes que a narrativa nos traga sobre o que acontece com cada uma das meninas, mais e mais nos parece que as duas nos são desconhecidas. As facetas mostradas são complexas, mas unilaterais. Conhecemos, talvez, um tanto melhor a narradora fantástica que é Lenu, pois ela é o prisma que nos parece mais rico do que a pintura engrandecedora, ainda que complexa, da amiga. Mergulhamos no íntimo da autoria de seus sentimentos ao repassar a amizade para o papel e no final nos perguntamos quem é de fato a Amiga Genial, Lina ou Lenu?

Depois repasso aqui o que vai me causar o restante da Tetralogia! No mais, descobri que essa Série Napolitana vai virar série de TV no próximo ano. De qualquer forma, fica aqui a indicação de leitura antes que vire imagem, para não perder nenhum fio dessa narrativa!

Autora: Suellen Lima. Formada em Letras, é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Estudante de Jornalismo. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com e no ig @leituresca!

 

Um comentário em “O que eu senti quando li A Amiga Genial de Elena Ferrante

  1. Olá Suellen,

    Também embarquei na série por pura curiosidade de ver se era realmente tudo aquilo que falavam e aqui estou eu me roendo para dar início ao terceiro livro! Só para te instigar ainda ainda mais, o segundo livro é ainda mais envolvente que o primeiro e traz temas polêmicos e recorrentes durante toda a história, rs.

    Até mais,

    Samantha

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