Entre bruxas e cortesãs | Um olhar sobre o filme “Em Luta pelo Amor”

Depois do filme, Em luta pelo amor, e das milhares de histórias que conheço sobre a condição da mulher no cinema, na literatura e na vida cotidiana, fica cada vez mais difícil se manter calada diante do esforço de todas elas por uma nesga de existência legítima e autêntica, por uma voz que ressoe no mundo sem que seja ouvida como vaidade, manipulação, feitiçaria, dominação e perigo.

Não há uma maneira pior de tirar a legitimidade dos conhecimentos de uma mulher do que os reduzir a sedução, bruxaria e histeria. Assim fez o século XVI, em Veneza, com a poetisa e cortesã, Veronica Franco, que foi levada ao tribunal da Inquisição pronta para ser queimada na fogueira por ter sido acusada, como tantas outras, de enfeitiçar os homens até seus lençóis impuros. Assim fez as diferentes épocas com várias de nós.

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Naquela época, o filme mostra que o papel da mulher de família nobre restringia-se a firmar aliança de poder por meio de um casamento promissor com um nobre riquíssimo. Com os deveres de ambos cumpridos pelos votos matrimoniais, os homens podiam gozar de maior liberdade extraconjugal, sendo importante para afirmar seu poder e virilidade o relacionamento com amantes e cortesãs. As esposas, no entanto, dedicavam-se à religião, ao bordado e à garantia de herdeiros com saúde. Sempre à sombra de seus maridos, essas mulheres não tinham acesso a livros, pouco ou quase nada conheciam de filosofia, artes, geografia e assuntos políticos do Estado.

Diferente, era a educação de uma cortesã, como ilustra o filme Em luta pelo amor, de 1998, sobre a vida de Veronica Franco. Além da arte do prazer, essas mulheres dominavam os conhecimentos correntes da época, sabiam cantar, dançar, tocar instrumentos musicais, eram versadas em várias artes, acessavam bibliotecas, cultivavam a atenção e o afeto nas rodas masculinas, tendo voz e até poder de convencimento para as questões mais delicadas. As amantes também tinham força, como é o caso de Ana Bolena e Henrique VIII, com a anulação de casamentos e rompimentos institucionais.

Trailer do filme “Em luta pelo amor” http://www.adorocinema.com/filmes/filme-1033/trailer-19543409/

No mundo dominado pelo falo, a força e atuação das mulheres assusta os mais poderosos. Pouco se reteve na historiografia sobre a produção artística e científica, por assim dizer, dessas mulheres que tinham na pena da escrita e no útero o fardo de se esconderem para existir. Sempre que ameaçamos o poder, mesmo que seja para servir ao nosso país e crenças, como fez Joana D’arc, por exemplo, acabamos por sermos julgadas feiticeiras e queimadas em fogueiras, antes de fogo, agora, de símbolos. Pergunto se de fato o perigo está em nossas habilidades carnais ou na fraqueza e no abalo que causamos às hierarquias e aos lugares sociais estabelecidos pelos homens, quando começamos a lutar para mostrar que a cultura humana deve nos contemplar, porque de fato agimos no mundo e fazemos parte dela.

Queima-nos o tempo atual ao esquecer que nossos corações e mentes são produtores de conhecimento em diversas fontes do saber, ao desprezar com ar paternalista o que criamos para além dos filhos. Queima-nos aqueles que somente conseguem se relacionar conosco se tivermos condições favoráveis diante das exigências materiais e psicológicas. O nosso novo dote inclui a estabilidade econômica, um corpo impecável, a façanha de ser dona de casa exemplar, a mãe que não tiveram, a funcionária eficiente…

Enquanto redobram o número de jaulas, tomamos novamente a pena para sabermos que homens e mulheres estão presos sob os mesmos ditames materiais, para tomarmos consciência de que entre o amor e o dinheiro os valores de ambos estão comprados pela opressão e obsessão da prosperidade, sustentados pela hierarquia, pelo individualismo e pela irresponsabilidade social. Se esse era o destino somente dos homens, agora passou para nós mulheres também, mas sem que tenhamos de todo o direito de nos expressarmos, de agir no mundo, de escolher nosso caminho, de sermos cortesãs, de não sermos queimadas por sermos mulheres. Desculpem, mas queremos maior liberdade do que os seus modelos e conquistas conseguiram nos mostrar.


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

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