Criminalização do Aborto | O lugar dos homens na luta

A decisão do STF sobre a questão do aborto (http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/11/30/decisao-do-stf-legaliza-o-aborto-ate-o-terceiro-mes-da-gravidez-entenda.htm) criou um rebuliço nas redes sociais. Um dos comentários comuns que eu tenho visto de pessoas que dizem apoiar o feminismo e de algumas feministas é que “quem não tem útero não devia opinar”, no caso se referindo aos homens. Apesar de eu entender a premissa, esse tipo de discurso é muito perigoso, trazendo mais problemas do que soluções.

Em primeiro lugar, é inegável que a decisão sobre se uma mulher deve ou não abortar é de responsabilidade única e exclusiva dela. Nem Estado, nem companheiro/a, nem família têm DIREITO sobre o corpo da gestante para intervir. Todavia, isso não implica em EXCLUSÃO do processo, pois é DEVER de todos apoiar e participar de forma a dar suporte à decisão da mulher, pois essa decisão é sempre traumática.

Em segundo lugar, quando saímos da esfera do individual e/ou do familiar, a questão do aborto é uma questão de saúde pública. Apesar de não ser decisão do Estado determinar sobre se uma mulher deve abortar ou não, é seu DEVER promover políticas públicas de proteção e amparo às mulheres que quiserem/precisarem abortar. E isso não é só passivamente permitir o ato, o limite último da decisão do STF, mas efetivamente garantir a possibilidade de escolha responsável por parte da mulher, garantindo apoio psicológico, médico e legal para que o aborto não se torne uma decisão fruto da desigualdade social, das pressões econômicas, das preconcepções familiares e da fragilidade inerente ao momento da gravidez.

Por esse motivo que normalmente se percebe uma queda no número de abortos em países que legalizaram a prática: ao se tentar promover o fim do tabu sobre o aborto, as mulheres podem tomar a decisão com apoio das pessoas que a cercam e podem usufruir de uma rede de saúde social e pública de amparo que, ao fazê-la se sentir segura, diminui as ameaças, as ansiedades, os desgostos, as frustrações e os medos que podem acometer uma grávida em seu período de gestação.

Terceiro lugar, é DEVER de qualquer um dar suporte a pessoas em situação de fragilidade, na medida de suas possibilidades psíquicas, sociais e materiais. Mulheres grávidas estão em um momento de fragilidade, pois seus corpos passam por inúmeras mudanças físicas e psicológicas, que trazem não somente riscos ao corpo como também podem afetar negativamente a autoestima, a identidade e a estabilidade mental da mulher. Isso não é dizer que a mulher seja frágil por essência, de maneira nenhuma, mas as alterações no corpo, as pressões sociais e o próprio fato de a individualidade e a identidade serem afetadas pela presença de outro ser em seu corpo colocam esse momento como de fragilidade emocional, social e física da gestante.

Logo, quando uma mulher se sentir insegura quanto a sua gravidez, mostrando que está pensando no aborto, é necessário que sejamos capazes de dar suporte e cuidado, possibilitando que a mulher grávida perceba opções de futuro, sendo fundamental para aqueles que estão perto da gestante, inclusive para os homens, mostrar alternativas, se voluntariando sinceramente a ajudar e sugerindo apoio psicológico. Isso não significa de maneira nenhuma pressionar sutilmente a não abortar, mas mostrar que não é o único caminho.

Por exemplo, caso uma jovem de 18 anos tenha ficado grávida e passe a achar que sua vida vai acabar, que a criança vai impossibilitá-la de seguir uma carreira ou ter certos tipos de experiências, o aborto pode passar a ser uma possibilidade em seu horizonte de expectativas. É dever daqueles que a cercam, homens inclusos, mostrar nesse momento de INDECISÃO que ela não precisar criar x filhx sozinha, se dispondo a ajudar e tentando apresentar exemplos de outras mães que tiverem soluções inteligentes para situações semelhantes, soluções que ela pode não estar vendo por uma série de motivos. Contudo, ao mesmo tempo, é vital sempre deixar o aborto como uma opção viável, moralmente justa, completamente realizável e em equidade com as outras possíveis escolhas.

Em resumo, apesar da linha ser tênue entre a pressão e o suporte, é vital permitir, emocional, social e materialmente, que as mulheres grávidas em problemas tenham outras alternativas que não a gravidez indesejada/perigosa/inconveniente/traumática e o aborto. Isso é papel do Estado, da família, dos amigos e dos/das companheiros/as, permitir que a mulher tenha possibilidade de escolhas, de decidir plenamente entre vários caminhos, tornados possíveis e sem sobrecarga moral, emocional e material.

Por fim, é muito cruel e de um autoritarismo sutil o entendimento de que se eu não sou parte da minoria eu não devo participar DE MANEIRA NENHUMA no ativismo político, pois esse discurso muitas vezes vira desculpa para o racismo, o machismo e o classismo passivos e para a falta de comprometimento com a ação política contra as injustiças sociais. Não é porque eu sou branco, heterossexual e ocidental que eu não possa ler, me informar e dar suporte a movimentos sociais. Na verdade, por isso mesmo eu tenho o DEVER social de me informar, me educar, me transformar e ajudar os movimentos sociais sempre que possível e dentro das minhas possibilidades.

Além disso, esse discurso ignora um elemento fundamental: a grande inflexão da política que ocorreu no século XX foi o entendimento de que os processos de subjetivação (a formação de subjetividades) são processos políticos e sociais. As políticas de identidade surgidas ou recriadas no século XX tem aí a sua genealogia. Dessa forma, apesar das mulheres serem as principais prejudicadas e dos homens serem os que se beneficiam do machismo, os homens, corpos formados para o machismo, são também sujeitados (no sentido duplo de submetidos e formados enquanto subjetividades) a esse mesmo machismo. Dessa maneira, apesar de não estarem na mesma condição de opressão que as mulheres, os homens têm suas próprias pautas contra o machismo, devendo e se organizando em movimentos sociais. Por esse motivo, entre outros, que seria mais certo falar de machismos.

Isso não implica que os homens sejam feministas, no sentido de protagonistas do feminismo, mas que nós temos o dever de contribuir e dar suporte às mulheres em luta e que temos também nossas próprias contas para acertar contra o machismo. O processo de subjetificação que cria os homens-machos, nossa educação para o machismo, é cruel e tenta limitar os homens a serem opressores. Permitir novas subjetividades masculinas para além da violência, da dominação e da sexualidade do estupro é uma luta que nós homens temos que nos dedicar, em parceria com o feminismo. O movimento gay (falando aqui só dos homens homossexuais, não das lésbicas) é um exemplo dessa luta.

A luta pelos direitos reprodutivos não é, portanto, somente das mulheres, mas de todos. Aos homens se têm imposto uma paternidade da exclusão, da não participação e da reprodução do papel de “provedor”. Nós homens queremos chorar e amar com nossos filhos, queremos viver intensamente o momento de sermos pais, PARTILHANDO as responsabilidades da criação.

Um exemplo de pauta para nós homens é o aumento do tempo da licença paternidade, se possível se igualando à licença maternidade. Para os homens heterossexuais essa pauta se liga ao desejo de ajudar as suas companheiras após o parto e de serem proativos nas tarefas de criação e educação, partilhando igualmente as responsabilidades e acompanhando os primeiros momentos da criança.

Para os casais gays, o fato da licença paternidade ser bem menor que a licença maternidade prejudica e limita os cuidados que os pais devem ter ao adotar uma criança, não havendo igualdade em uma legislação que coloca esses casais, na melhor das opções, como de segunda categoria. Sermos pais que fujam dos modelos de masculinidade opressores, autoritários, violentos e que contestem o papel de provedores é uma luta necessária e deve ser protagonizada também e sobretudo por nós homens.

O Instituto PAPAI, de Pernambuco, é um exemplo de um coletivo composto por homens e mulheres voltado para a luta na formação de novas masculinidades:

 

Nossa missão é promover cidadania com justiça social, contribuindo para a garantia dos direitos humanos, em prol da eliminação de desigualdades e da afirmação e valorização da diversidade a partir da perspectiva feminista de gênero, atuando prioritariamente com homens e sobre masculinidades, contra todas as expressões do machismo.

(http://institutopapai.blogspot.com.br/p/sobre-o-grupo.html)

Enfim, as falas mencionadas no início desse texto que estão sendo criadas, divulgadas e mobilizadas nas redes sociais e em parcelas de alguns movimentos sociais, afirmando que “quem não tem útero não deve nem pensar em opinar” podem levar a interpretações e vivências que não contribuem em nada para a luta contra a desigualdade social, mas que a reforçam. É preciso a formação de coletivos, onde homens e mulheres trabalhem juntos contra suas opressões, se apoiando mutuamente e percebendo as causas em comum, sem nunca tirar o protagonismo de ninguém.

O feminismo é um movimento que veio para a ficar e os homens precisam aprender com as experiências das mulheres, permitindo que o feminismo os transformem. Podemos ser, portanto, protagonistas na luta contra o machismo também, mas entendendo quais são nossas lutas e pautas, ajudando na discussão e na promoção da luta contra as desigualdades de gênero. A questão do aborto é um dos centros atuais nesse debate. Dessa maneira, devemos, sim, discutir sobre o aborto.

Homens, a luta contra a criminalização do aborto também é nossa!


252884_103190966439346_7392168_n

Rafael de Farias Vieira, historiador e… atualizando as definições de identidade.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s