Vamos ser contemporâneas? | Clube Leitoras de Jane Austen

Finalmente aconteceu o nosso encontro do Clube Leitoras de Jane Austen!

Não sei se os leitores daqui já sabem, mas tive a brilhante ideia (modéstia parte) de organizar um clube de leitura só de meninas para ler a obra completa de Jane Austen. Além das reuniões entre as leitoras, combinamos de fazer um diário de leitura coletivo.

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A cada livro uma leitora ficará temporariamente em posse do diário para escrever suas impressões de leitura e ler o que as outras leitoras escreveram.

Esse é um movimento de amor que tenta resgatar a prática antiga de escrever à mão e, ainda, a de cultivar um diário (nada secreto).

Foi incrível ler Razão e Sensibilidade pela primeira vez. Um livro carregado de percepções ferinas sobre como as relações sociais podem ser mesquinhas. Se fosse possível renomear essa obra, um título cabível seria “Dinheiro e Amor”. Sim, o Amor em segundo lugar, porque aqui a felicidade está mais associada ao dinheiro do que à realização amorosa sincera.

Casamento nesse tempo era a coisa mais séria e vital para as moças inglesas, que, de acordo com a lei da época, não herdavam nada da família e, caso também não possuíssem dotes, dificilmente conseguiriam se sustentar e muito menos conseguiriam um casamento promissor. Essa era uma condição que a própria Jane Austen viveu, mantinha-se com a irmã, com uma pequena quantia e, enquanto escritora, arrecadava uma quantia irrisória para um sustento prolongado com base no ofício. Ô coisa difícil é ser ESCRITORA!

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A classe de média do interior da Inglaterra em meados de 1800 tinha como principal passatempo a preocupação com os casamentos e destinos das jovens moças. Aqui, fica claro para o leitor que a aparição de uma família ou de um jovem solteiro é um verdadeiro evento para a localidade. Além da preocupação mor com o alcovitamento, fica claro que a distância entre as propriedades de terra reforça a novidade que é a aparição de alguém diferente do seio familiar. Portanto, travar relações com os recém chegados era consequência natural, acarretando em longas visitas, excursões, bailes e jantares para proporcionar “encontrinhos”.

 

Atualmente, há uma dificuldade imensa de ficar sozinho e afastado das pessoas. Cidades grandes apinhadas de gente e monitoramentos via wi-fi devem deixar rastros suficientes para que você não se sinta completamente isolado. Acredite, o Google sabe onde você está nesse exato momento! Mas aquela época era tempo de cartas, demorava. As notícias vinham recentes ainda que demorassem a chegar, parecia até que os acontecimentos respeitavam o tempo de alastramento das novidades. Londres era badalada, mas Jane Austen pouco fala da capital inglesa e, quando fala, dificilmente faz elogios.

No nosso encontro foi possível ainda rever o filme Razão e Sensibilidade, vale a pena demais! Enriquecemos nossa experiência de leitura e acredito que tivemos um tanto de despertar de consciência quando olhamos a condição da mulher e o lugar social que ela ocupava em uma época diferente da nossa, fazendo as devidas comparações com a atualidade.

Pode parecer esquisito, mas o movimento de olhar a historicidade dessas narrativas, atentando para o papel da mulher é na verdade um movimento contemporâneo.  Ao reconhecer as circunstâncias históricas de uma narrativa, não estamos elaborando uma justificativa para validar o que a tradição sempre reforçou, mas sim estamos revolvendo uma terra cansada, que se bem nutrida de alteridade pode revelar frutos importantes para o momento presente.

Nunca concordei em fazer o contrário, pois acredito ser uma semeadura torta ir com os frutos e o cultivo do presente para o passado, tentando forçar ou exigir como deveria ter sido a coisa toda. Isso é uma cegueira de julgamento. Acredito que o esclarecimento vem da consciência do seu estar no mundo e, a partir disso, ser possível viajar para tempos remotos sem nunca perder a luminescência do presente, tendo a chance de conhecer e contestar a consciência de outros tempos.

Filosofei? É daí para pior… 😉

Próxima leitura: Orgulho e Preconceito.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

2 comentários em “Vamos ser contemporâneas? | Clube Leitoras de Jane Austen

  1. A Jane Austen se estivesse aqui ia só mudar as situações de seus livros, mas ainda estaria fazendo as mesmas criticas. Hoje em dia na nossa cultura de ostentação o que vale ainda é o dinheiro acima do amor e quem dera um dia poder dizer que esse pensamento supérfluo está fora de moda, ah como eu quero… Razão e Sensibilidade é um romance bonito, a forma como a autora pinta sua protogonistas é profunda e vemos uma tentativa de torná-las o menos ficcionais possível. Que delícia é acompanhar seus comportamentos! Algo incômodo e ao mesmo tempo interessante são os diálogos que nos revelam sempre uma cortina entre o que é falado e o que realmente se quer dizer, seja para com os sentimentos/intenções nobres ou seja com os sentimentos/intenções ruins. Em resumo, um livro ótimo. Adorei seu texto com análise bem feita e um, sensível e a ideia do diário, nossa, que linda!

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