Lidos de 2016! | RetrôBooks

O ano está quase acabando e achei importante fazer um balanço das minhas leituras de 2016 para ajudar a planejar 2017! Nem todos os livros da lista tem resenha aqui no blog, mas se quiserem… é só pedir! Indicações de 2017? Manda aí! Comprando pelos links da Amazon, você ajuda o Blog a continuar existindo. Feliz Natal hohoho

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1. Drácula – Bram Stoker

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Um pavoroso embate entre bem e mal que seduz milhares de leitores há mais de um século. Fonte de inúmeras adaptações para telas e palco, inspiração para músicos, escritores e artistas de todas as áreas, Drácula é um ícone incontestável e obra-máxima de Bram Stoker. De um lado o conde Drácula – o mais famoso vampiro da literatura – e sua legião crescente de mortos-vivos. De outro, um grupo unido e decidido a caçá-lo: Jonathan e Mina Harker, o médico holandês Van Helsing e seus amigos. Romance epistolar ágil e bem-construído, esse livro enredará também você nessa dramática corrida contra o tempo. Essa edição traz o texto integral de Bram Stoker, centenas de notas, apresentação e cronologia de vida e obra do autor, tudo isso no padrão de qualidade dos Clássicos Zahar. A versão impressa apresenta capa dura e acabamento de luxo.

2. O Velho e o Mar – Ernest Hemingway

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Depois de anos na profissão, havia 84 dias que o velho pescador Santiago não apanhava um único peixe. Por isso já diziam se tratar de um salão, ou seja, um azarento da pior espécie. Mas ele possui coragem, acredita em si mesmo, e parte sozinho para alto-mar, munido da certeza de que, desta vez, será bem-sucedido no seu trabalho.

Esta é a história de um homem que convive com a solidão, com seus sonhos e pensamentos, sua luta pela sobrevivência e a inabalável confiança na vida. Com um enredo tenso que prende o leitor na ponta da linha, Hemingway escreveu uma das mais belas obras da literatura contemporânea.

Uma história dotada de profunda mensagem de fé no homem e em sua capacidade de superar as limitações a que a vida o submete.

3. Hibisco Roxo – Chimamanda Ngozi Adichie

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Protagonista e narradora de Hibisco roxo , a adolescente Kambili mostra como a religiosidade extremamente “branca” e católica de seu pai, Eugene, famoso industrial nigeriano, inferniza e destrói lentamente a vida de toda a família. O pavor de Eugene às tradições primitivas do povo nigeriano é tamanho que ele chega a rejeitar o pai, contador de histórias encantador, e a irmã, professora universitária esclarecida, temendo o inferno. Mas, apesar de sua clara violência e opressão, Eugene é benfeitor dos pobres e, estranhamente, apoia o jornal mais progressista do país.

Durante uma temporada na casa de sua tia, Kambili acaba se apaixonando por um padre que é obrigado a deixar a Nigéria, por falta de segurança e de perspectiva de futuro. Enquanto narra as aventuras e desventuras de Kambili e de sua família, o romance também apresenta um retrato contundente e original da Nigéria atual, mostrando os remanescentes invasivos da colonização tanto no próprio país, como, certamente, também no resto do continente.

4. As Três Marias – Rachel de Queiroz

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Em seu quarto romance, As três Marias, a escritora cearense Rachel de Queiroz foi ainda mais fundo em um tema que já estava presente em todas as suas obras anteriores: o papel da mulher na sociedade. A história tem início nos pátios e salas de aula de um colégio interno dirigido por freiras: Maria Augusta, Maria da Glória e Maria José são amigas inseparáveis que ganham de seus colegas e professores o apelido de “as três Marias”. À noite, deitadas na grama e olhando para o céu, as meninas se reconhecem na constelação com a qual dividem o nome. A estrela de cima é Maria da Glória, resplandecente e próxima. Maria José se identifica com a da outra ponta, pequenina e trêmula. A do meio, serena e de luz azulada, é Maria Augusta – ou simplesmente Guta, como sempre preferiu ser chamada

5. Quarenta Dias – Maria Valéria Rezende

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Quarenta dias no deserto, quarenta anos. É o que diz (ou escreve) Alice, a narradora de ‘Quarenta dias’, romance de Maria Valéria Rezende, ao anotar num caderno escolar pautado, com a imagem da boneca Barbie na capa, seu mergulho gradual em dias de desespero, perdida numa periferia empobrecida que ela não conhece, à procura de um rapaz que ela não sabe ao certo se existe. Alice é uma professora aposentada, que mantinha uma vida pacata em João Pessoa até ser obrigada pela filha a deixar tudo para trás e se mudar para Porto Alegre. Mas uma reviravolta familiar a deixa abandonada à própria sorte, numa cidade que lhe é estranha, e impossibilitada de voltar ao antigo lar. Ao saber que Cícero Araújo, filho de uma conhecida da Paraíba, desapareceu em algum lugar dali, ela se lança numa busca frenética, que a levará às raias da insanidade. ‘Eu não contava mais horas nem dias’, escreve Alice em ‘Quarenta dias’, um relato emocionante e profundo. ‘Guiavam-me o amanhecer e o entardecer, a chuva, o frio, o sol, a fome que se resolvia com qualquer coisa, não mais de dez reais por dia (…)’. Onde andaria o filho de Socorro? A que bando estranho se havia juntado, em que praça ficara esquecido?

 6. As Meninas – Lygia Fagundes Telles 

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Num pensionato de freiras paulistano, em 1973, três jovens universitárias começam sua vida adulta de maneiras bem diversas. A burguesa Lorena, filha de família quatrocentona, nutre veleidades artísticas e literárias. Namora um homem casado, mas permanece virgem. A drogada Ana Clara, linda como uma modelo, divide-se entre o noivo rico e o amante traficante. Lia, por fim, milita num grupo da esquerda armada e sofre pelo namorado preso.

As meninas colhe essas três criaturas em pleno movimento, num momento de impasse em suas vidas. Transitando com notável desenvoltura da primeira pessoa narrativa para a terceira, assumindo ora o ponto de vista de uma ora de outra das protagonistas, Lygia Fagundes Telles constrói um romance pulsante e polifônico, que capta como poucos o espírito daquela época conturbada e de vertiginosas transformações, sobretudo comportamentais.

Obra de grande coragem na época de seu lançamento (1973), por descrever uma sessão de tortura numa época em que o assunto era rigorosamente proibido, As meninas acabou por se tornar, ao longo do tempo, um dos livros mais aplaudidos pela crítica e também um dos mais populares entre os leitores da autora.

7. Alice no País das Maravilhas – Lewis Carroll

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Passados quase 150 anos da publicação original, a clássica história de uma menina chamada Alice, que entra em uma toca atrás de um coelho e cai em um mundo de fantasia, continua popular.

Essa charmosa edição de bolso com ilustrações originais de John Tenniel, reúne Aventuras de Alice no País das Maravilhas e sua continuação, Através do espelho e o que Alice encontrou por lá.

8. Dom Casmurro – Machado de Assis

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Obra clássica do Realismo brasileiro e uma das mais famosas de Machado “Ainda hoje. mais de um século depois do surgimento do livro. leitores e críticos se debruçam sobre suas páginas na tentativa de encontrar pistas que lancem luz sobre o insolúvel ‘enigma de Capitu’.” Carlos Newton Júnior “É possivelmente o texto mais bem-acabado de nossa língua.” Carlos Sepúlveda Dom Casmurro é o romance mais estudado. comentado e discutido de Machado de Assis – o que significa dizer um dos mais estudados da nossa literatura. Publicado originalmente em 1899. o livro conta a história de Bentinho e Capitu. desde o namoro infantil até o casamento atormentado pelo ciúme e pela dúvida que virou polêmica literária: Capitu traiu o marido com o melhor amigo dele. Escobar? Os fatos são narrados por Bentinho. que relembra. já velho. episódios de sua vida.

9. Turismo para Cegos – Tércia Montenegro

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A vida de Laila está prestes a se esfacelar. Jovem aluna de artes plásticas, ela tem os planos interrompidos por uma doença degenerativa e incurável que vai lhe custar a visão. Conforme a cegueira avança, tarefas corriqueiras tornam-se desafios e tudo o que lhe era familiar precisa ser explorado e redescoberto. Assim, também há algo de novo no envolvimento com Pierre, um funcionário público aparentemente inexpressivo que irá cuidar de Laila com dedicação.

10. Olhai os Lírios do Campo – Erico Verissimo

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Primeiro best-seller de Erico Verissimo, Olhai os lírios do campo representou uma guinada na carreira literária do escritor. Várias edições se esgotaram em poucos meses. Segundo Erico, o sucesso foi tão grande que “teve a força de arrastar consigo os romances” que publicara antes em modestas tiragens.

Eugênio Pontes, moço de origem humilde, a custo se forma médico e, graças a um casamento por interesse, ingressa na elite da sociedade. Nesse percurso, porém, é obrigado a virar as costas para a família, deixar de lado antigos ideais humanitários e abandonar a mulher que realmente ama. Sensível, comovente, Olhai os lírios do campo é um convite à reflexão sobre os valores autênticos da vida.

11. Menino do Mato – Manoel de Barros

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Um dos últimos livros escritos por Manoel de Barros, Menino do mato sintetiza com perfeição suas aspirações e seu estilo. Esse menino, que é a consciência do poeta, deseja apreender o mundo sem explicações ou propósitos. Na primeira das duas partes que compõem esta obra, Manoel reforça sua instintiva ligação com a natureza e a infância. Em sua procura por “palavras abençoadas pela inocência”, o poeta busca o universo em seu estado primordial. A segunda parte, “Caderno de aprendiz”, evidencia a absoluta liberdade de sua linguagem. Aqui, as palavras deixam de nomear para nos fazer simplesmente sentir a pureza dos primeiros tempos de nossas vidas.

12. Feliz Ano Velho – Marcelo Rubens Paiva 

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Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas”.

13. Razão e Sensibilidade – Jane Austen

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Originalmente publicado em 1811 sob o singelo pseudônimo “A Lady”, Razão e sensibilidade começou a ser escrito na década de 1790, quando Jane Austen (1775-1817) mal havia completado vinte anos. O livro é o primeiro da série de quatro romances que Austen publicou como edição do autor em seus últimos anos de vida. Todos se tornaram clássicos da literatura inglesa do século XIX.

Embora sua trama se desenvolva durante uma época de guerra e revolução no continente europeu, o romance concentra sua narrativa nas idílicas tramas de amor e desilusão em que duas belas irmãs inglesas se envolvem – Elinor e Marianne Dashwood – quando chega a idade do casamento. À procura do amor verdadeiro, as filhas órfãs de uma família pertencente à pequena nobreza enfrentam o mundo repleto de interesses e intrigas da alta aristocracia. Marianne e Elinor representam polos opostos do universo ético de Austen: Marianne é romântica, musical e dada a rompantes de espontaneidade, ao passo que Elinor é a encarnação da prudência e do decoro.

14. A Louca da Casa – Rosa Montero

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Em A louca da casa, Rosa Montero propõe aos leitores um jogo narrativo cheio de surpresas. Nele se misturam literatura e vida, num coquetel estimulante de biografias e autobiografia romanceada. E assim descobrimos que o grande Goethe adulava os poderosos até chegar ao ridículo, que Tolstói era um energúmeno, que Rosa, quando criança, via-se como uma anã e que, aos 23 anos, manteve um extravagante e hilário romance com um ator famoso.
Mas não devemos confiar em tudo o que a autora conta sobre si mesma: as lembranças nem sempre são o que parecem. Este é, afinal, um livro sobre a fantasia e os sonhos, a loucura e a paixão, os medos e as dúvidas dos escritores, mas também dos leitores. A louca da casa é, antes de mais nada, a tórrida história de amor e de salvação entre Rosa Montero e seu imaginário.


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Entre bruxas e cortesãs | Um olhar sobre o filme “Em Luta pelo Amor”

Depois do filme, Em luta pelo amor, e das milhares de histórias que conheço sobre a condição da mulher no cinema, na literatura e na vida cotidiana, fica cada vez mais difícil se manter calada diante do esforço de todas elas por uma nesga de existência legítima e autêntica, por uma voz que ressoe no mundo sem que seja ouvida como vaidade, manipulação, feitiçaria, dominação e perigo.

Não há uma maneira pior de tirar a legitimidade dos conhecimentos de uma mulher do que os reduzir a sedução, bruxaria e histeria. Assim fez o século XVI, em Veneza, com a poetisa e cortesã, Veronica Franco, que foi levada ao tribunal da Inquisição pronta para ser queimada na fogueira por ter sido acusada, como tantas outras, de enfeitiçar os homens até seus lençóis impuros. Assim fez as diferentes épocas com várias de nós.

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Naquela época, o filme mostra que o papel da mulher de família nobre restringia-se a firmar aliança de poder por meio de um casamento promissor com um nobre riquíssimo. Com os deveres de ambos cumpridos pelos votos matrimoniais, os homens podiam gozar de maior liberdade extraconjugal, sendo importante para afirmar seu poder e virilidade o relacionamento com amantes e cortesãs. As esposas, no entanto, dedicavam-se à religião, ao bordado e à garantia de herdeiros com saúde. Sempre à sombra de seus maridos, essas mulheres não tinham acesso a livros, pouco ou quase nada conheciam de filosofia, artes, geografia e assuntos políticos do Estado.

Diferente, era a educação de uma cortesã, como ilustra o filme Em luta pelo amor, de 1998, sobre a vida de Veronica Franco. Além da arte do prazer, essas mulheres dominavam os conhecimentos correntes da época, sabiam cantar, dançar, tocar instrumentos musicais, eram versadas em várias artes, acessavam bibliotecas, cultivavam a atenção e o afeto nas rodas masculinas, tendo voz e até poder de convencimento para as questões mais delicadas. As amantes também tinham força, como é o caso de Ana Bolena e Henrique VIII, com a anulação de casamentos e rompimentos institucionais.

Trailer do filme “Em luta pelo amor” http://www.adorocinema.com/filmes/filme-1033/trailer-19543409/

No mundo dominado pelo falo, a força e atuação das mulheres assusta os mais poderosos. Pouco se reteve na historiografia sobre a produção artística e científica, por assim dizer, dessas mulheres que tinham na pena da escrita e no útero o fardo de se esconderem para existir. Sempre que ameaçamos o poder, mesmo que seja para servir ao nosso país e crenças, como fez Joana D’arc, por exemplo, acabamos por sermos julgadas feiticeiras e queimadas em fogueiras, antes de fogo, agora, de símbolos. Pergunto se de fato o perigo está em nossas habilidades carnais ou na fraqueza e no abalo que causamos às hierarquias e aos lugares sociais estabelecidos pelos homens, quando começamos a lutar para mostrar que a cultura humana deve nos contemplar, porque de fato agimos no mundo e fazemos parte dela.

Queima-nos o tempo atual ao esquecer que nossos corações e mentes são produtores de conhecimento em diversas fontes do saber, ao desprezar com ar paternalista o que criamos para além dos filhos. Queima-nos aqueles que somente conseguem se relacionar conosco se tivermos condições favoráveis diante das exigências materiais e psicológicas. O nosso novo dote inclui a estabilidade econômica, um corpo impecável, a façanha de ser dona de casa exemplar, a mãe que não tiveram, a funcionária eficiente…

Enquanto redobram o número de jaulas, tomamos novamente a pena para sabermos que homens e mulheres estão presos sob os mesmos ditames materiais, para tomarmos consciência de que entre o amor e o dinheiro os valores de ambos estão comprados pela opressão e obsessão da prosperidade, sustentados pela hierarquia, pelo individualismo e pela irresponsabilidade social. Se esse era o destino somente dos homens, agora passou para nós mulheres também, mas sem que tenhamos de todo o direito de nos expressarmos, de agir no mundo, de escolher nosso caminho, de sermos cortesãs, de não sermos queimadas por sermos mulheres. Desculpem, mas queremos maior liberdade do que os seus modelos e conquistas conseguiram nos mostrar.


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

Criminalização do Aborto | O lugar dos homens na luta

A decisão do STF sobre a questão do aborto (http://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2016/11/30/decisao-do-stf-legaliza-o-aborto-ate-o-terceiro-mes-da-gravidez-entenda.htm) criou um rebuliço nas redes sociais. Um dos comentários comuns que eu tenho visto de pessoas que dizem apoiar o feminismo e de algumas feministas é que “quem não tem útero não devia opinar”, no caso se referindo aos homens. Apesar de eu entender a premissa, esse tipo de discurso é muito perigoso, trazendo mais problemas do que soluções.

Em primeiro lugar, é inegável que a decisão sobre se uma mulher deve ou não abortar é de responsabilidade única e exclusiva dela. Nem Estado, nem companheiro/a, nem família têm DIREITO sobre o corpo da gestante para intervir. Todavia, isso não implica em EXCLUSÃO do processo, pois é DEVER de todos apoiar e participar de forma a dar suporte à decisão da mulher, pois essa decisão é sempre traumática.

Em segundo lugar, quando saímos da esfera do individual e/ou do familiar, a questão do aborto é uma questão de saúde pública. Apesar de não ser decisão do Estado determinar sobre se uma mulher deve abortar ou não, é seu DEVER promover políticas públicas de proteção e amparo às mulheres que quiserem/precisarem abortar. E isso não é só passivamente permitir o ato, o limite último da decisão do STF, mas efetivamente garantir a possibilidade de escolha responsável por parte da mulher, garantindo apoio psicológico, médico e legal para que o aborto não se torne uma decisão fruto da desigualdade social, das pressões econômicas, das preconcepções familiares e da fragilidade inerente ao momento da gravidez.

Por esse motivo que normalmente se percebe uma queda no número de abortos em países que legalizaram a prática: ao se tentar promover o fim do tabu sobre o aborto, as mulheres podem tomar a decisão com apoio das pessoas que a cercam e podem usufruir de uma rede de saúde social e pública de amparo que, ao fazê-la se sentir segura, diminui as ameaças, as ansiedades, os desgostos, as frustrações e os medos que podem acometer uma grávida em seu período de gestação.

Terceiro lugar, é DEVER de qualquer um dar suporte a pessoas em situação de fragilidade, na medida de suas possibilidades psíquicas, sociais e materiais. Mulheres grávidas estão em um momento de fragilidade, pois seus corpos passam por inúmeras mudanças físicas e psicológicas, que trazem não somente riscos ao corpo como também podem afetar negativamente a autoestima, a identidade e a estabilidade mental da mulher. Isso não é dizer que a mulher seja frágil por essência, de maneira nenhuma, mas as alterações no corpo, as pressões sociais e o próprio fato de a individualidade e a identidade serem afetadas pela presença de outro ser em seu corpo colocam esse momento como de fragilidade emocional, social e física da gestante.

Logo, quando uma mulher se sentir insegura quanto a sua gravidez, mostrando que está pensando no aborto, é necessário que sejamos capazes de dar suporte e cuidado, possibilitando que a mulher grávida perceba opções de futuro, sendo fundamental para aqueles que estão perto da gestante, inclusive para os homens, mostrar alternativas, se voluntariando sinceramente a ajudar e sugerindo apoio psicológico. Isso não significa de maneira nenhuma pressionar sutilmente a não abortar, mas mostrar que não é o único caminho.

Por exemplo, caso uma jovem de 18 anos tenha ficado grávida e passe a achar que sua vida vai acabar, que a criança vai impossibilitá-la de seguir uma carreira ou ter certos tipos de experiências, o aborto pode passar a ser uma possibilidade em seu horizonte de expectativas. É dever daqueles que a cercam, homens inclusos, mostrar nesse momento de INDECISÃO que ela não precisar criar x filhx sozinha, se dispondo a ajudar e tentando apresentar exemplos de outras mães que tiverem soluções inteligentes para situações semelhantes, soluções que ela pode não estar vendo por uma série de motivos. Contudo, ao mesmo tempo, é vital sempre deixar o aborto como uma opção viável, moralmente justa, completamente realizável e em equidade com as outras possíveis escolhas.

Em resumo, apesar da linha ser tênue entre a pressão e o suporte, é vital permitir, emocional, social e materialmente, que as mulheres grávidas em problemas tenham outras alternativas que não a gravidez indesejada/perigosa/inconveniente/traumática e o aborto. Isso é papel do Estado, da família, dos amigos e dos/das companheiros/as, permitir que a mulher tenha possibilidade de escolhas, de decidir plenamente entre vários caminhos, tornados possíveis e sem sobrecarga moral, emocional e material.

Por fim, é muito cruel e de um autoritarismo sutil o entendimento de que se eu não sou parte da minoria eu não devo participar DE MANEIRA NENHUMA no ativismo político, pois esse discurso muitas vezes vira desculpa para o racismo, o machismo e o classismo passivos e para a falta de comprometimento com a ação política contra as injustiças sociais. Não é porque eu sou branco, heterossexual e ocidental que eu não possa ler, me informar e dar suporte a movimentos sociais. Na verdade, por isso mesmo eu tenho o DEVER social de me informar, me educar, me transformar e ajudar os movimentos sociais sempre que possível e dentro das minhas possibilidades.

Além disso, esse discurso ignora um elemento fundamental: a grande inflexão da política que ocorreu no século XX foi o entendimento de que os processos de subjetivação (a formação de subjetividades) são processos políticos e sociais. As políticas de identidade surgidas ou recriadas no século XX tem aí a sua genealogia. Dessa forma, apesar das mulheres serem as principais prejudicadas e dos homens serem os que se beneficiam do machismo, os homens, corpos formados para o machismo, são também sujeitados (no sentido duplo de submetidos e formados enquanto subjetividades) a esse mesmo machismo. Dessa maneira, apesar de não estarem na mesma condição de opressão que as mulheres, os homens têm suas próprias pautas contra o machismo, devendo e se organizando em movimentos sociais. Por esse motivo, entre outros, que seria mais certo falar de machismos.

Isso não implica que os homens sejam feministas, no sentido de protagonistas do feminismo, mas que nós temos o dever de contribuir e dar suporte às mulheres em luta e que temos também nossas próprias contas para acertar contra o machismo. O processo de subjetificação que cria os homens-machos, nossa educação para o machismo, é cruel e tenta limitar os homens a serem opressores. Permitir novas subjetividades masculinas para além da violência, da dominação e da sexualidade do estupro é uma luta que nós homens temos que nos dedicar, em parceria com o feminismo. O movimento gay (falando aqui só dos homens homossexuais, não das lésbicas) é um exemplo dessa luta.

A luta pelos direitos reprodutivos não é, portanto, somente das mulheres, mas de todos. Aos homens se têm imposto uma paternidade da exclusão, da não participação e da reprodução do papel de “provedor”. Nós homens queremos chorar e amar com nossos filhos, queremos viver intensamente o momento de sermos pais, PARTILHANDO as responsabilidades da criação.

Um exemplo de pauta para nós homens é o aumento do tempo da licença paternidade, se possível se igualando à licença maternidade. Para os homens heterossexuais essa pauta se liga ao desejo de ajudar as suas companheiras após o parto e de serem proativos nas tarefas de criação e educação, partilhando igualmente as responsabilidades e acompanhando os primeiros momentos da criança.

Para os casais gays, o fato da licença paternidade ser bem menor que a licença maternidade prejudica e limita os cuidados que os pais devem ter ao adotar uma criança, não havendo igualdade em uma legislação que coloca esses casais, na melhor das opções, como de segunda categoria. Sermos pais que fujam dos modelos de masculinidade opressores, autoritários, violentos e que contestem o papel de provedores é uma luta necessária e deve ser protagonizada também e sobretudo por nós homens.

O Instituto PAPAI, de Pernambuco, é um exemplo de um coletivo composto por homens e mulheres voltado para a luta na formação de novas masculinidades:

 

Nossa missão é promover cidadania com justiça social, contribuindo para a garantia dos direitos humanos, em prol da eliminação de desigualdades e da afirmação e valorização da diversidade a partir da perspectiva feminista de gênero, atuando prioritariamente com homens e sobre masculinidades, contra todas as expressões do machismo.

(http://institutopapai.blogspot.com.br/p/sobre-o-grupo.html)

Enfim, as falas mencionadas no início desse texto que estão sendo criadas, divulgadas e mobilizadas nas redes sociais e em parcelas de alguns movimentos sociais, afirmando que “quem não tem útero não deve nem pensar em opinar” podem levar a interpretações e vivências que não contribuem em nada para a luta contra a desigualdade social, mas que a reforçam. É preciso a formação de coletivos, onde homens e mulheres trabalhem juntos contra suas opressões, se apoiando mutuamente e percebendo as causas em comum, sem nunca tirar o protagonismo de ninguém.

O feminismo é um movimento que veio para a ficar e os homens precisam aprender com as experiências das mulheres, permitindo que o feminismo os transformem. Podemos ser, portanto, protagonistas na luta contra o machismo também, mas entendendo quais são nossas lutas e pautas, ajudando na discussão e na promoção da luta contra as desigualdades de gênero. A questão do aborto é um dos centros atuais nesse debate. Dessa maneira, devemos, sim, discutir sobre o aborto.

Homens, a luta contra a criminalização do aborto também é nossa!


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Rafael de Farias Vieira, historiador e… atualizando as definições de identidade.

Vamos ser contemporâneas? | Clube Leitoras de Jane Austen

Finalmente aconteceu o nosso encontro do Clube Leitoras de Jane Austen!

Não sei se os leitores daqui já sabem, mas tive a brilhante ideia (modéstia parte) de organizar um clube de leitura só de meninas para ler a obra completa de Jane Austen. Além das reuniões entre as leitoras, combinamos de fazer um diário de leitura coletivo.

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A cada livro uma leitora ficará temporariamente em posse do diário para escrever suas impressões de leitura e ler o que as outras leitoras escreveram.

Esse é um movimento de amor que tenta resgatar a prática antiga de escrever à mão e, ainda, a de cultivar um diário (nada secreto).

Foi incrível ler Razão e Sensibilidade pela primeira vez. Um livro carregado de percepções ferinas sobre como as relações sociais podem ser mesquinhas. Se fosse possível renomear essa obra, um título cabível seria “Dinheiro e Amor”. Sim, o Amor em segundo lugar, porque aqui a felicidade está mais associada ao dinheiro do que à realização amorosa sincera.

Casamento nesse tempo era a coisa mais séria e vital para as moças inglesas, que, de acordo com a lei da época, não herdavam nada da família e, caso também não possuíssem dotes, dificilmente conseguiriam se sustentar e muito menos conseguiriam um casamento promissor. Essa era uma condição que a própria Jane Austen viveu, mantinha-se com a irmã, com uma pequena quantia e, enquanto escritora, arrecadava uma quantia irrisória para um sustento prolongado com base no ofício. Ô coisa difícil é ser ESCRITORA!

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A classe de média do interior da Inglaterra em meados de 1800 tinha como principal passatempo a preocupação com os casamentos e destinos das jovens moças. Aqui, fica claro para o leitor que a aparição de uma família ou de um jovem solteiro é um verdadeiro evento para a localidade. Além da preocupação mor com o alcovitamento, fica claro que a distância entre as propriedades de terra reforça a novidade que é a aparição de alguém diferente do seio familiar. Portanto, travar relações com os recém chegados era consequência natural, acarretando em longas visitas, excursões, bailes e jantares para proporcionar “encontrinhos”.

 

Atualmente, há uma dificuldade imensa de ficar sozinho e afastado das pessoas. Cidades grandes apinhadas de gente e monitoramentos via wi-fi devem deixar rastros suficientes para que você não se sinta completamente isolado. Acredite, o Google sabe onde você está nesse exato momento! Mas aquela época era tempo de cartas, demorava. As notícias vinham recentes ainda que demorassem a chegar, parecia até que os acontecimentos respeitavam o tempo de alastramento das novidades. Londres era badalada, mas Jane Austen pouco fala da capital inglesa e, quando fala, dificilmente faz elogios.

No nosso encontro foi possível ainda rever o filme Razão e Sensibilidade, vale a pena demais! Enriquecemos nossa experiência de leitura e acredito que tivemos um tanto de despertar de consciência quando olhamos a condição da mulher e o lugar social que ela ocupava em uma época diferente da nossa, fazendo as devidas comparações com a atualidade.

Pode parecer esquisito, mas o movimento de olhar a historicidade dessas narrativas, atentando para o papel da mulher é na verdade um movimento contemporâneo.  Ao reconhecer as circunstâncias históricas de uma narrativa, não estamos elaborando uma justificativa para validar o que a tradição sempre reforçou, mas sim estamos revolvendo uma terra cansada, que se bem nutrida de alteridade pode revelar frutos importantes para o momento presente.

Nunca concordei em fazer o contrário, pois acredito ser uma semeadura torta ir com os frutos e o cultivo do presente para o passado, tentando forçar ou exigir como deveria ter sido a coisa toda. Isso é uma cegueira de julgamento. Acredito que o esclarecimento vem da consciência do seu estar no mundo e, a partir disso, ser possível viajar para tempos remotos sem nunca perder a luminescência do presente, tendo a chance de conhecer e contestar a consciência de outros tempos.

Filosofei? É daí para pior… 😉

Próxima leitura: Orgulho e Preconceito.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !