Sobre Rodas | Feliz Ano Velho de Marcelo Rubens Paiva

Ler literatura brasileira se tornou tão viciante que mal me lembro dos grandes clássicos da literatura universal que tenho na estante. Sem querer fazer uma hierarquia entre as literaturas, percebo que, cada vez mais, para ser uma escritora “viajada” tenho que mergulhar na dicção da literatura brasileira contemporânea.

A tônica e cadência da leitura se encaixam perfeitamente em algo que já carrego dentro de mim. E o que seria? Ainda não sei…mas compreendo que não é apenas uma identificação de nacionalidade. É mais do que isso: é uma forma particular e ao mesmo tempo conjugada de se ver a vida e o cotidiano. Particular, porque é singular de cada escritor e conjugada, porque de alguma forma há muita empatia entre a nossas conversas (leitura).

Foi assim com o romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva, Feliz Ano Velho. Fisgada já na primeira linha, passava horas e horas lendo as histórias desse garoto namorador que por conta do “destino” ficou paraplégico aos 20 anos depois de pular de cabeça em um lago raso e fraturar a medula. Contrariando a expectativa do leitor de compadecer-se do “coitado”, Marcelo faz com que a gente consiga sorrir diante das suas percepções sobre essa situação crítica.

 

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A gravidade do problema passa para a história, mas não como algo sério ou sisudo demais, chocando o leitor de sobrancelhas armadas, ao ponto de evocar o sentimento de pena. Marcelo “transa” a situação mais complicada de sua vida com o humor de um garoto que viveu e continuava vivendo relacionamentos indefinidos com as mulheres, muitas amizades e o amor à vida.

Visto como um livro de memórias, ele não se concentra apenas no período de recuperação de Marcelo, mas mergulha ainda na infância marcada pelo sumiço do pai pela Ditadura Militar, o deputado Rubens Paiva, que somente em 2014 com a Comissão da Verdade teve seu caso esclarecido. Além disso, o livro conta sobre a juventude do Autor enquanto universitário no curso de engenharia agrícola, participando ativamente das lutas políticas estudantis na Universidade de Campinas, e, ainda, suas vivências como músico de paixão.

Em meio a vários obstáculos novos, o sexo é abordado constantemente, parece até que Marcelo sabe qual a primeira coisa que o leitor vai pensar: Será que um tetraplégico consegue fazer sexo? Sente prazer? Tem ereção? (Vai bem me dizer que você sordidamente nunca se perguntou sobre isso?) Essas são também as principais questões do Autor que vê sua vida mudar radicalmente sem ter a certeza se vai conseguir andar novamente e fazer tudo o que os outros fazem.

Com um humor leve e uma linguagem despojada cheia de gírias da década de 1980, o leitor é conduzido a compreender que Marcelo não está ali contando sua jornada de herói, não se considera nem mesmo como um exemplo de superação. Sem dó algum, ele mesmo vai examinando a medula espinhal de sua personalidade imatura, machista, inconsequente e cheia de fraquezas.

A beleza do livro está certamente no sentimento de gratidão que acompanha cada conquista do corpo, na manutenção das relações de amizade que vivificam sua rotina minimalista e na presença da família, relembrando-nos o que é realmente importante valorizar na vida e que cada respiração é motivo suficiente para celebrá-la. Aqui com certeza a empatia aconteceu.


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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

A peregrinação interior | Quarenta Dias de Maria Valéria Rezende

É preciso deixar claro que depois de ler Quarenta Dias não é mais possível olhar para um caderno da Barbie nas Americanas e agir normalmente.

 

O livro, vencedor do 57º Prêmio Jabuti, conta a história de Alice, 60 anos, professora de línguas, aposentada e viúva, que foi levada de João Pessoa para Porto Alegre pela filha, tendo como missão ser avó profissional para que a mãe da criança continuasse sua carreira acadêmica.

Maria Valéria Rezende é freira desde os 24 anos de idade, não é, portanto, sem propósito o título do livro. A autora tem conhecimento de causa do que quarenta dias significa no universo bíblico. Esse foi o período em que Jesus passou no deserto, o qual simbolicamente os cristãos católicos retomam no período pós-Carnaval e pré-Páscoa.

Alice, narradora-personagem, também sai em peregrinação durante quarenta dias pelas ruas de Porto Alegre, passando em becos, alojamentos de construtoras, rodoviária e até saguão de pronto socorro em busca de Cícero Araújo, filho perdido da manicure de uma amiga lá de João Pessoa.

Bastou isso como pretexto para Alice sair daquela vida emprestada, daquele apartamento arranjado e sem história, daquela função imposta de ser avó. Na verdade, perdida de si mesma, sem o endereço da sua nova casa em uma cidade desconhecida, Alice preferiu passar quarenta dias em mendicância a ter que voltar para a nova situação que a vida lhe impunha.

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No entanto, ao contrário da figura bíblica, o terreno em que ela peregrinou era fértil, dele brota várias percepções críticas do cotidiano, como as de que lá no Sul, os de cá do Nordeste são considerados todos iguais, de que também tem gaúcho negro e de que as dicotomias entre as Regiões embalam mais proximidades e interseções do que se imagina.

“[…] desde aquela manhã, no meio daquela agitação que eu mesma causara com a minha pergunta, vinha ganhando uma calma por dentro que havia muito não sentia, as falas, emoções e estranhezas do mundo maior me chamando pra fora e a minha própria amargura encolhendo-se num canto discreto. Estranhezas, eu disse? Engraçado é que eu tinha a impressão de, afinal, quase nada ver de tão estranho assim, neste Sul tão longe de casa, o povo misturado de todas as cores, os petiscos de pobre, aquele tanto de negros gaúchos que eu nunca soube que existiam, violência e solidariedade, pobreza e necessidade, iguais às da minha terra, a pedir milagres. ” (Pág., 120)

 O olhar para o mundo não é de denúncia social – do tipo que direciona o seu ponto de vista frio sobre a condição de existência do outro, estando munido do direito de falar o que é melhor para a vida alheia –  ao contrário, Maria Valéria Rezende, por meio de Alice, tece uma narrativa vívida do que é não se sentir abrigado em si mesmo, não poder fazer escolhas e ter que exercer uma função que lhe é imposta, tendo apenas como alternativa legítima, digna e autêntica, diga-se de passagem, viver no entre-lugar, na transitoriedade das ruas, durante quarenta dias em busca de si mesma. Àquela dor de ter que ceder, de aceitar o que é obrigado sem antes digerir, foi preferível fugir e preencher o vazio com a dor crua do mundo.

“Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos. […] A essa altura, meu caso, da minha própria filha, desaparecida simplesmente porque eu me recusava a ter mais notícias dela, começava a me parecer banal e mais uma vez me deixava levar por outra pessoa, agora, porém, sem nenhuma revolta, nem pensei em recusar, fui, pra onde me puxaram, decerto satisfeita por não ter de me emocionar com mais nada senão Cícero Araújo […]. ” (Pág., 118)

E o caderno da Barbie? Ora, pois num é dele que temos notícias de tudo! A boneca loira de olhos azuis da capa do caderno serviu ali para Alice como um ato de ressureição, a conceder o auto perdão depois da penitência. Era preciso colocar para fora, expurgar a experiência, concretizar a dor na escrita, para que a olhando de fora, pudesse facilitar o entendimento do que está dentro. O caderno da Barbie é miraculoso.

“E aqui estou vomitando nestas páginas amareladas os primeiros garranchos com que vou enchê-las até botar tudo pra fora e esconjurar toda essa gente que tomou conta de mim e grita e anda pra lá e pra cá e chora e xinga e gargalha e geme e mija e sorri e caga e fede e canta e arenga e escarra e fala e fode e fala e vende e fala e sangra e se vende e sonha e morre e ressuscita sem parar.” (Pág., 14)

Como não se surpreender com a leveza da narrativa da escritora, com a plasticidade da linguagem que sai natural, mas que revela no fundo que só sabe brincar com a linguagem e transgredir, criar novos sentidos e formas, aquele que domina e conhece a norma e suas fissuras. De contraponto fica o questionamento de que não é preciso muita coisa para escrever o que está nos afligindo; basta uma mente, sã ou não, um caderno, da Barbie, de preferência, e uma caneta. O resto, vem depois.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !