A criança de 150 anos | Alice de Lewis Carroll

A pior coisa do mundo é sabermos tudo sobre a vida de alguém que não conhecemos! Afinal, de que adianta? Essa era a minha relação com o livro Aventuras de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carroll. Uma fofoca pela metade!

Por ser uma referência desde o filme de Walt Disney de 1951, facilmente me deparo com sua imagem em cadernos, blusas, pingentes, etc., mas nunca parei para ler de fato essa mocinha de mais de 150 anos. Apesar da idade, Alice não caducou. A irreverência de sua história continua a cativar aqueles que se predispõem a perseguir o coelho branco e ler o livro.

A obra foi publicada em 1865 e com a ajuda das ilustrações de John Tenniel, importante ilustrador da época, inaugura a estética do nonsense, ao mesmo tempo em que abre as portas do mercado editorial inglês para livros voltados especificamente para o divertimento das crianças.

O enredo começa com Alice já questionando para que serve um livro sem diálogos e sem figuras. Se essa questão não é a razão de ser da literatura infantil, qual seria? Entediada ao lado da irmã que lia, Alice de repente é surpreendida por um coelho branco de colete e de relógio de bolso, reclamando que está atrasado. Basta esse mote para que qualquer criança ou adulto fique ardendo de curiosidade e continue a ler o livro. (É claro que se o livro tivesse sido lançado ontem a curiosidade seria muito maior!)

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Antes que se diga algo a mais sobre a história, é importante que o leitor saiba que há dois caminhos de leitura que podem vez por outra se cruzarem. Um dos caminhos é ler viajando nas imagens absurdas e até mesmo psicodélicas sem a preocupação com o sentido ou com o significado por trás de cada cena; o outro caminho é ler parando para pensar na crítica à sociedade vitoriana e nos possíveis questionamentos existenciais que a obra suscita.

Qualquer um dos percursos escolhidos e até a intersecção deles são suficientes para que o leitor se depare com as principais contradições trabalhadas no livro: sonho x realidade e lógica racional x loucura. Vale ressaltar que essas oposições não se anulam, mas se combinam para que o leitor tenha um momento de base e se escorregue para a ruptura.

Nessas combinações contraditórias nos deparamos com:

  • a pontualidade dos ingleses na figura do coelho que sempre está correndo;
  • a crítica às várias histórias para crianças que necessariamente carregavam uma moral, visando o comportamento social e a educação moral;
  • os questionamentos ontológicos do tipo “quem sou eu?”, associados aos momentos em que Alice cresce e diminui de tamanho diante dos desafios com os quais se depara;
  • a loucura e a insensatez presentes na cena famosa do chá com o Chapeleiro, que também se remete ao costume inglês do chá das cinco;
  • a crítica ao comportamento de sua sociedade em julgar/sentenciar/condenar antes que se tenha o veredicto (inocente ou culpado), leia-se: “não tenho provas, mas tenho convicção que…”screen-shot-2014-09-15-at-11-29-14

Há ainda uma relação interessante dos livros do Carroll com jogos que envolvem raciocínio lógico, como o jogo de cartas e o xadrez, ao tornar suas respectivas peças em personagens. Talvez, e aqui deixo toda a minha reputação como leitora vulnerável, a escolha esteja associada ao fato de que esses jogos representem sociedades aristocráticas (Rei, rainha, coringa, valete, dama, bispo, peão), tal como a inglesa, em que cada elemento desempenhava uma função determinada dentro de um conjunto de regras.

Alice causa uma ruptura no sistema de regras do jogo-sociedade com sua personalidade questionadora, imaginativa, crítica, sonhadora, capaz de inverter a ordem natural das coisas, chegando a se aproximar da loucura.

Ora! E quantos por aí não foram considerados loucos somente pelo fato de serem subversivos e transgressores do sistema de regras vigente?

Será se já temos razões suficientes para ler o livro? Espera… Acrescente um pouco de animais estranhos, um gato que sorri, uma rainha de copas tirana, misture tudo até homogeneizar. Pronto, agora pode se servir. Não esqueça o chá!

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

 

 

 

 

3 comentários em “A criança de 150 anos | Alice de Lewis Carroll

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