As vozes de “As Meninas” | Lygia Fagundes Telles

Em “As Meninas”, Lygia Fagundes Telles nos presenteia com a história de três moças universitárias, Lorena, Lia e Ana Clara que, apesar de serem bastante diferentes umas das outras, mantêm uma intensa amizade.

O romance, publicado em 1973, período auge da repressão na Ditadura Militar, tem como plano de fundo a contemporaneidade do governo ditatorial e, embora não aborde o tema em toda a sua complexidade, é parte fundamental da relação das meninas. O contexto é tão presente e tão bem costurado à trama que dificilmente as diferenças entre as personagens teriam o mesmo peso ou destaque caso o momento histórico fosse mero acessório.

Outro ponto forte do livro é a escolha da narração. O enredo em si não possui muitas ações e reviravoltas, pois trata-se de um livro de imersão profunda nas relações e na psicologia das personagens.

E qual seria a melhor maneira de conhecermos essas meninas se não for por elas mesmas? Sim. Lorena, Lia e Ana Clara são personagens narradoras e quase não vemos marcas de um narrador onisciente agarrando as rédeas da história.

Por meio de um jogo polifônico, em que as vozes das três meninas se confundem, temos acesso à singularidade de cada uma delas. Convivemos com suas contradições, anseios e expectativas, ou seja, passamos a ouvi-las e conhecê-las de tal forma que se cria a ilusão de que suas existências sejam reais. Para melhor entendermos esse aspecto da linguagem, seguem as palavras de Paulo Bezerra:

“O que caracteriza a polifonia é a posição do autor como regente do grande coro de vozes que participam do processo dialógico. Mas esse regente é dotado de um ativismo especial, rege vozes que ele cria ou recria, mas deixa que se manifestem com autonomia e revelem no homem um outro […]”. – Paulo Bezerra

Em um período de amordaçamento, repressão e censura, dar voz autêntica a três mulheres de classes sociais e trajetórias diferentes faz todo o sentido, pois, a polifonia permite que as meninas, por meio do diálogo e da intersecção de suas vozes, tenham autoconsciência de si mesmas e passem a agir como sujeitos da própria história de vida que é também política.

“A posição da qual se narra e se constrói a representação ou se comunica algo deve nortear-se em face de sujeitos isônomos, investidos de plenos direitos, um mundo de consciências individuais caracterizadas por forte grau de autonomia e vida própria, pois a consciência do autor não transforma a própria consciência dos outros – das personagens – em objetos de sua própria consciência e de seu próprio discurso, não conclui essas consciências porque não as concebe como entidades estáticas e sim como marca identitária do indivíduo. […] Não podemos “espiar o indivíduo, ouvir às escondidas suas conversas”, assim como não podemos “predeterminar suas confissões”, pois se assim procedêssemos estaríamos cometendo uma violência contra as personagens e violando seu estatuto de independência no convívio polifônico.” – Paulo Bezerra

As consonâncias presentes no livro trazem à tona as crises sociais das instituições mais caras ao período: a Família e a Juventude. Na contramão do projeto do regime em conservar a família tradicional brasileira e a juventude sob os preceitos morais e cívicos, a obra aborda o rearranjo das famílias após o divórcio, assim como a maternidade sem o casamento. A juventude, representada pelas moças universitárias, é também contrária ao Estado quando são abordadas a questão do uso de drogas, da homossexualidade e da liberdade sexual.

Outra consonância é a relação das meninas com o catolicismo, o que mostra um pouco a variação do papel da Igreja na Ditadura Militar. As três moram em um pensionato de freiras progressistas, que ao lado delas compõem um quadro complexo da realidade do período, apresentando percepções sobre virgindade, sexo, desejo, pecado etc. Na época, freiras e padres progressistas, ou seja, contrários ao regime e normalmente de esquerda, se contrapunham a grupos católicos conservadores que endossavam o projeto político-moral de manter a família e a juventude sob os moldes tradicionais.

Entre tantos gritos, vale a pena o desafio de ler, ou melhor, ouvir o que essas três meninas têm a dizer. Em alguns momentos a leitura pode ficar difícil, não se nega, mas basta o leitor pensar na proposta do diálogo e da alteridade, tão necessárias ao nosso período político, que mudará de ideia e seguirá adiante.

Boa leitura!

Para você ter uma melhor clareza dos conceitos de Polifonia e Dialogismo ver:

BEZERRA, Paulo. Polifonia. In: BRAIT, Beth (org). Bakhtin: conceitos-chave. São Paulo: Contexto, 2010.

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Link “As Meninas” : https://goo.gl/BzC5dH

Link “Bakhtin: conceitos-chave”: https://goo.gl/reurQP

 


13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

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