Olívia de Erico Verissimo, uma brasileira.

É quase impossível falar sobre apenas um aspecto de uma obra tão rica como Olhai os lírios do campo. O romance, publicado em 1938, narra a história de Eugênio, um médico de origem modesta que ao ter notícias do estado terminal de Olívia, seu grande amor, passa a rememorar sua trajetória de vida a caminho da despedida no hospital.

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Enquanto Eugênio faz um check-up de si mesmo, o leitor mergulha em uma Porto Alegre dos anos de 1930, em que temas e tabus, como: casamento, aborto, virgindade, desquite (divórcio no Brasil só em 1977), fascismo, arte moderna, diferenças sociais, entre outros, ajudam a compor uma trama robusta de conflitos.

Tal como em Dom Casmurro, somente conseguimos entrever a personagem feminina (Olívia, Capitu) pela perspectiva do personagem principal (Eugênio, Bentinho) por meio de um exame de consciência. O que diferencia essas obras em paralelo é que a voz de Olívia está exposta, além de nos diálogos, nas cartas deixadas a Eugênio. Ainda assim, não temos acesso na íntegra ao conteúdo das cartas, apenas lemos as passagens que o reviram por dentro.

Incapaz de amar a Deus e até a si mesmo, o médico se sustenta na abstração do que foi Olívia em vida. Para regenerar-se do egoísmo, da mesquinharia e do complexo de inferioridade, o personagem acaba transformando-a em uma Santa, uma mentora que irá guia-lo para o caminho da redenção. Exemplo de fé, altruísmo e dedicação, Olívia parece muitas vezes como inumana.

edição que tinha na casa dos meus pais quando eu não sabia ler.
edição que tinha na casa dos meus pais quando eu não sabia ler.

Embora de caráter divino para ele, Olívia poderia representar um choque para os anos de 1930 (e para hoje?), por se desviar de alguns valores morais tidos como definidores de “pessoas de bem”, “corretas” e “direitas”.

Não é sem motivo que Eugênio diz que o passado dela é obscuro, apenas por não ter sido seu primeiro parceiro sexual. Na história, o leitor desconhece as repercussões sociais do seu relacionamento com o personagem, mas, pelo contexto social e pelas situações que abordam o trinômio virgindade-gravidez-aborto, entende que ser mãe solteira era também um desvio.

Olívia é mulher sem família, é mulher sem origem. Mora de favor na casa de alemães. A tentativa de Eugênio em encontrar seu passado mostra que para “conhecer de fato” alguém era preciso dar origem, saber as procedências da moça. O relacionamento todo tinha sido pautado somente na trajetória dele, mas e a trajetória de Olívia? Nada sabemos. Precisamos?!

“Olívia não tinha irmãos. Nunca lhe falara em nenhum Carlos. Por que motivo estava tal fotografia naquele álbum de recordações? Examinando-a mais de perto, verificava ainda uma vez que a sua superfície esmaltada estava quebrada em muitos pontos, dando a impressão de que a fotografia havia sido um dia amassada talvez por uma mão raivosa. Eugênio não se podia furtar a um sentimento de ciúme, pois tinha desconfiança de que aquele Carlos estava ligado à parte escura do passado de Olívia. Sim, talvez fosse o homem que primeiro a tivera nos braços.” 

 A “transgressão” também está no fato dela ser a única mulher na sala de Eugênio a cursar Medicina. Os colegas de curso apenas conseguem aceitar sua presença quando passam a trata-la como um colega, um companheiro (escrito em itálico no livro, mostrando o destaque do autor para a diferença dos papéis de gênero).

O foco narrativo de Eugênio diz muito do olhar da sociedade que precisa assimilar Olívia, mas não consegue. Sem sabermos narrativamente (começo-meio-fim) a trajetória dela, nos encantamos com seus ensinamentos de Fé e com os obstáculos que é viver, sendo tudo isso: mulher, pobre, mãe solteira. Sua coragem e sabedoria são imensas, quando diz que “a vida começa todos os dias” e, mais ainda no trecho:

“Procurar nossa felicidade através da felicidade dos outros – aconselhava Olívia noutra carta sem data. – Não estou pregando o ascetismo, a santidade, não estou elogiando o puro espírito de sacrifício e renúncia. Tudo isso seria inumano, significaria ainda uma fuga da vida. Mas o que procuro, o que desejo, é segurar a vida pelos ombros e estreitá-la contra o peito, beijá-la na face. Vida, entretanto, não é o ambiente em que te achas. As maneiras estudadas, as frases convencionais, o excesso de conforto, os perfumes caros e a preocupação do dinheiro são apenas uma péssima contrafação da vida. Buscar a poesia da vida será coisa que tenha nexo? ” 

Mas afinal, se nem santa, nem prostituta, quem é Dra. Olívia?

Apenas mais uma brasileira.

 

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13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

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