Hibisco Roxo e seu (re)significar do silêncio

Em Hibisco Roxo, da autora Chimamanda Ngozi Adichie, vemos uma história sobre dogmas e a distância promovida por eles.

O livro Hibisco Roxo da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie nos dá a oportunidade de conhecer a trajetória da vida de Kambili, marcada pela idolatria, pelo fanatismo, pela opressão, e, consequentemente, pela supressão da voz de sua autonomia, revestida em uma visão única do mundo.

Hibisco roxo Chimamanda Ngozi Adichie

Chimamanda, por meio de Kambili, personagem-narradora, coloca-nos diante de uma narrativa simples, permeadas de não-ditos que gritam o tempo todo a complexidade de como a vida deve ser encarada: de maneira fluída, sem interdições.

Vestindo algumas situações com palavras (voz), a escrita da autora nigeriana defronta-nos com algo concreto e, ao mesmo tempo, perturbador, com certas situações nuas (silêncio) à espera do leitor para serem ouvidas.

A obra é dividida em quatro movimentos – Quebrando deuses; Falando com nossos espíritos; Os pedaços de deuses; Um silêncio diferente –  que correspondem a perspectiva de Kambili sobre as rupturas e rearranjos das relações de sua família.

A simbologia em Hibisco Roxo

A literatura é repleta de obras que utilizam simbologia própria. Na saga criada por Chimamanda Ngozi Adichie também é possível detectar, por exemplo, o momento onde ocorre uma imersão na memória, provocada durante o Domingo de Ramos, onde a narrativa de Kambili, sem ser em tom confessional, delineia as contradições pertinentes em seu pai Eugene e a formação de uma lacuna em si mesma.

O personagem de Papa Eugene encerra uma postura católica ortodoxa de cunho fundamentalista, vigiando e punindo os filhos e a esposa por meio de agressões físicas chocantes ao leitor.

De certo modo, Kambili e Jaja, seu irmão, veem o pai como homem santo, um “Deus” ou, pelo menos, a personificação dele. Sob sua orientação, a vida dos dois é regida rigorosamente com horários definidos em tabela para os estudos, para as refeições, para as horas em família e para as orações. A disciplina de Eugene é tamanha que pode ser comparada a de um pastor, ordenhando suas ovelhas para o caminho unicamente considerado correto e bom.

“Durante seus sermões, o padre Benedict sempre falava do papa, do meu pai e de Jesus – nessa ordem. Ele usava meu pai para ilustrar os evangelhos.”

Homem rico, íntegro e solidário aos olhos dos demais, Papa era dono, além da fábrica de biscoitos e sucos, do jornal Standart. O único que publicou um editorial crítico a respeito do Golpe que se instaurava no momento, com a ascensão de um chefe de Estado militar na Nigéria. De contraponto a suas práticas opressoras com a família, Papa defendia a “Democracia renovada”.

“Golpes levam a mais golpes, disse Papa, contando-nos sobre os golpes sangrentos dos anos de 1960, que acabaram se transformando em uma guerra civil […]. É claro, disse Papa, que os políticos eram mesmo corruptos, e o Standart já publicara muitas matérias sobre […]. Mas o que nós, nigerianos, precisávamos não era de soldados para nos comandar; precisávamos de uma democracia renovada.”

Como então reagir diante de tão dura educação, vinda de um ídolo?

“Jaja, Mama e eu fomos lá para cima nos trocar. Nossos passos na escada eram tão contidos e silenciosos quanto nossos domingos; o silêncio de esperar que Papa acordasse da sesta para que pudéssemos almoçar; o silêncio da hora da reflexão, quando Papa nos dava uma passagem da Bíblia ou um livro de um dos Pais da Igreja para que lêssemos e pensássemos sobre ele; o silêncio do rosário da noite; o silêncio de ir de carro até a igreja para receber a bênção depois. Mesmo nossa hora da família era silenciosa aos domingos, sem jogos de xadrez ou discussões sobre os jornais, mais apropriada para o Dia do Descanso.”

Uma família que não conversa entre si

Em Hibisco Roxo, sentimos que o silêncio surge como um dogma e que como tal, só poderá ser quebrado por meio de uma ruptura, um choque, mas como? Para mudanças é preciso reconhecer as fissuras no que é cristalizado e naturalizado.

Defender certezas é correr o perigo de apegar-se cegamente a uma visão correta e corretora do mundo, sem perceber que há nuances e, às vezes, profundas diferenças ao redor e é na escuridão de mentes fechadas que não há como ver, sequer entender que é preciso desver o mundo.

Kambili graças ao pai, tem a mentalidade incorporada desde a infância e vive conforme as “leis” sem perceber o perigo de permanecer calada. Por quanto tempo? Poderão ser visíveis as fissuras e rachaduras causadas pela opressão, o medo e a agressão psicológica e física? Tal consciência poderá ser capaz de quebrar um deus/visão?

A vinda da tia Ifeoma e dos primos em Nsukka e com o Avô, Papa-Nnukwu marca um novo momento na obra que nos remete a quebrar nossas próprias origens de mudez.

“Talvez Mama soubesse que não ia mais precisar das estatuetas; que quando Papa atirou o missal em Jaja, não foram apenas elas que se quebraram, mas todo o resto. […] A rebeldia de Jaja era como os hibiscos roxos experimentais de Tia Ifeoma: rara, com o cheiro suave de liberdade, uma liberdade diferente daquela que a multidão, brandindo folhas verdes, pediu na Government Square após o golpe. Liberdade para ser, para fazer.”

Se quiserem aumentar o volume dessa leitura e escutar claramente os sons sufocados feitos pelo traço de Chimamanda Ngozi Adichie  é preciso, urgentemente, procurar o Hibisco Roxo e lê-lo!

 

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Gostou da resenha do livro Hibisco Roxo da autora Chimamanda Ngozi Adichie? Se você já leu, que tal dividir comigo sua impressão desse livro marcante? Fique a vontade nos comentários.

 

13669841_1065479670210774_2813423822097175427_nAutora: Suellen Lima. Formada em Letras é escritora amadora, trabalha com revisão de textos e consultoria literária. Também é colunista, editora e revisora do portal escambau.org . Simplesmente amante da literatura no blog leituresca.com !

 

 

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